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4 de fevereiro de 2015

Indeterminado

Se não quiser ler tudo, leia apenas os 3 últimos parágrafos! 

Ah, Paulo. Um Paulo qualquer talvez, meu professor Paulo Camilo, idoso calmo da gramática do saber ao sono e as reflexões. Não foi a primeira vez que uma aula dele me inspirou. Lembram se do "Soneto da Reflexiva" ? Não?! Pois bem, estou aqui refletindo mais uma vez sobre a vida e os indeterminados flexíveis ou não.

Olho pra a direita e vejo um simpático amigo, ao lado dele aquele que me inspirará talvez criações e talvez se tornará uma personagem marcante ou não, mas uma personagem que não se passa por despercebida. A tal personagem que gosta das mesmas aulas que eu gosto e que número reduzido de pessoas se afeiçoam. Gramática!

Não foi dessa vez que eu imaginei aquela personagem e ela me tirou atenção. Compreendi toda a gramática e os sujeitos simples ou complexos, determinados ou indeterminados. Mas de repente por sei lá que motivo meu olhar vai de encontro a uma panturrilha e tudo se desembaraça, ou me embaraço mais ainda e perco o fio da meada.

Aquele sujeito esbelto de panturrilha firme desencadeou uma guerra em meu cérebro, espartanos contra atenienses. Troianos contra gregos. Uma guerra para além da gramática. Paulo Camilo não se fez mais presente por mais ou menos 6 minutos, para mim um tempo enorme para se perder imaginando absurdos. E a aula de história foi antecipada, acabei escrevendo História do Brasil no caderno de História Antiga.

O tal rapaz se fez guerreiro em meu devaneio sem sentido. Uma curta guerra que ressaltava sua braveza, inteligência e também beleza que para os povos mediterrâneos era muito importante. Transformei o em uma estátua, pisquei incrédula. Quantos minutos ? Será que alguém percebeu meu olhar para aquela perna sem sentido? O único sentido era andar, levantei me e fui ao banheiro ainda imaginando o rapaz em forma de mármore branco com seus cachos genuinamente esculpidos com a beleza e precisão das esculturas de Michelangelo.

A aula acabou mas esta crônica ainda não. Entrei no ônibus e comecei a ler o livro que minha amiga me deu, pretendo resenhá-lo futuramente. Observei as gramáticas, tantos sujeitos indefinidos e agora eu entendia melhor dos meus e o motivo pelo qual minha mãe sempre se queixou de não entender meus textos.

São todos sujeitos indefinidos, assim como o pseudo guerreiro de Troia. Indefinidos para vocês caros leitores, para mim até mesmo alguns são. Meras invenções, muitas vezes até esquecidas. Personagens sem nome. Totalmente indeterminados, porém conhecidos e com sentido prévio. O sentido pelo qual não reforço a personagem mas o que ela causou, pouco importa se a determinei.

Tão indeterminados somos que a qualquer momento podemos mudar de opinião e começar a gostar de coisas que aparentemente rejeitávamos. A própria aula de Gramática, não gostava muito e sentia aquele tipo de sono mortal enquanto o professor falava, mas um dia decidi que sentiria gozo em toda aula de Gramática e acabei me afeiçoando por ela.

Indeterminados somos, não só sujeitos em terceira pessoa e nunca citados. Somos incabíveis indeterminados, incompreendidos, desencontrados, desencantados, descontrolados, troianos, gregos, guerreiros, poetas, estudantes, sujeitos com seus preceitos, apenas números e muito mais que números, observadores, amadores, aspirantes, cheios de adjetivos. Adjetivados sujeitos, determinados em ser indeterminados na tentativa se determinarmos a ser protagonistas da eterna crônica da vida.

Perdoe me a confusão, se não pude determinar nem a minha própria crônica não cabe a ninguém a determinação de ser quem somos, não cabe a ninguém se prender em ideias pré concebidas, afinal somos todos uma ideia nova que surgiu no mundo.






20 de janeiro de 2015

O encontro


Mal acreditei que era verdade. Extasiada abracei o sem pronunciar uma palavra. Aquele abraço pareceu durar uma vida inteira e foi como se eu estivesse vivendo novamente toda a minha vida até aquele momento. Foi como se o mundo tivesse parado e como se só houvesse vida nele. Tudo tinha parado, eu sentia o calor do corpo dele colado ao meu, meus pés já não tocavam mais o chão, eu estava nas nuvens, na minha fantasia pseudo real. Ele me segurava pela cintura e aquele abraço tão singelo e todo  resto fez lágrimas rolarem do meu rosto. Uma mistura de água, sais minerais e paixão saiam dos meus olhos. Minha alegria era infinita. Ah, aquele corpo quente de dois metros de altura, aquelas mãos em volta do meu corpo me segurando forte e ao mesmo tempo tão suave. Eu estava perdida, agora tinha a tão esperada resposta. Perdidamente apaixonada por ele. Ficamos ali parados, abraçados, nossos corações batendo forte, minha respiração ofegante, meus olhos fechados agora conseguiam ver as mais lindas maravilhas que nem mesmo a própria visão pode oferecer. A voz dele interrompeu meus pensamentos. Um sussurro no meu ouvido "Querida, esperei tanto por este abraço. Amiga você é minha, minha pequena." Ele me apertou mais junto ao seu corpo e a eletricidade entre nós aumentou e subiu atravessando meu corpo verticalmente. Aquela corrente subiu da minha coluna até a cabeça. O toque das mãos dele queimavam minha pele. Ele entrelaçou seus dedos firmes na raiz do meu cabelo e afastou minha cabeça do seu ombro, olhou me firmemente nos olhos e beijou o caminho que as lágrimas fizeram da minha bochecha até meu queixo. Seus lábios tocavam meu Rosti e eu me senti enrubescendo. Fechei os olhos e ele pressionou seus lábios nos meus apertando me cada vez mais em seu corpo. Meu coração acelerou ainda mais os batimentos. Meu corpo frio estava se aquecendo com o calor dele. Era real, eu estava com ele agora e para sempre. Mais que o encontro de dois corpos, o encontro de dois corações, a fusão de duas almas em prol do amor.  


Texto escrito em 2013.
28 de dezembro de 2014

Maria do mato

Quando fui ao Mato Grosso conheci coisas que nunca tinha visto antes. Hospedei me numa cidadezinha chamada Novo Paraíso que de paraíso só tinha o nome. Adentrando nas redondezas da cidadela visitei uma tia avó que mora numa tapera bem simples. Nunca vi tantos filhos juntos numa só casinha. Umas cem pessoas de filhos e netos à agregados.

Zé é um moço de seus 20 anos que parece ter trinta e poucos, não tem todos os dentes na boca e sua pele é queimada do sol. Ele é casado com Maria que tem 15 anos. 15 anos Maria ? Quinze anos tinha eu quando conheci Maria, casou se aos 13 anos. Mamãe gosta de fotografar e logo quis fotos de todo o mato do Mato Grosso e dos que ali habitam. Maria é como eu não gosta de foto, eu corri mas logo me convenceram e tirar foto com eles. Maria virou as costas ficou emburrada e chorou. Ô Maria, não fica assim. É só uma foto, com fash mas não arranca pedaço.

Ô Maria tão boba, Maria forte e trabalhadeira. Maria que carrega bacia pra buscar água na bica que já sabe fazer remédio com casca de pau e que quer ter um filho pra cuidar. Ô Maria, eu que nem sou branca fico feito neve perto de ti. As meninas do Mato tão fortes perto de mim, apesar de serem franzinas são bem mais fortes que a gorducha branca da cidade e olha que nem sou branca eu só não pego sol.

Tantas Marias pelo Brasil, conheci Maria do mato, parecia bicho que se enconde e nós não somos todos bichos assim como ela ? Todos temos um quê a esconder, uma vergonha e uma falta de costume. Ô Maria seja forte seja bicho seja do mato e mata essa pobreza, corre atrás do que der e viva como quiser. Maria negligenciada tão nova já casada. Sua infância foi roubada pela desesperança do mato que mata todo sertanejo de sol, de fome, de sede, de doença, de chuva que acaba com a roça, de esquecimento.

Marias tão esquecidas, fortes na convalescença. Marias do Brasil, casados com Zés, Antônios, Raimundos e pelo mundo nunca são lembrados são negligenciados sem cuidados. Maria, não sei porque lembrei de ti mas vou colocar você em minhas preces quem sabe Deus te conceda alegria apesar das desigualdades. Cada um tem motivo pra sofrer e sorrir, pobreza não é defeito. Sou tão suspeita pra falar de ti. Fica no teu paraíso que eu de longe lembro que Maria é bicho e toda pessoa também é Maria. Do mato mata as desesperanças e lança no mundo a luz de existir feito água que cai da bica e traz barulho na mata do silêncio de cada coração que pulsa. Ô Maria não chora, ri que o coração melhora e o mundo fica mais colorido, agradece a Deus pela natureza que todo ser tem algo de falido. 
23 de dezembro de 2014

Das divagações cotidianas: emancipação

Uma tarde de quinta-feira como todas as tardes normais de quinta saí de casa e fui a pé até a sala da psicóloga. Sentei me no banco para esperar que ela abrisse o consultório e me recebesse com aquele sorriso enorme que não sai daquela face. Pela primeira vez de todas as sessões não me atrasei. Fiquei ali a encarar aquela porta verde claro com o número dezoito preso nela. Dezoito poderia ser apenas mais um número qualquer mas é o número da minha próxima idade. Daqui a alguns meses terei 18 anos de idade. Dezoito, o número da emancipação. Pelo menos a emancipação formal no meu país. Será que muita coisa vai mudar ? Ou assim como no consultório 18 seria apenas um número ? Com certeza terei mais direitos e deveres legais. Entretanto 18 será minha emancipação apenas se eu aprender nesses 5 meses até a chegada da data a lidar comigo e saber decidir minha vida sem a ajuda dos meus pais. Provavelmente não serei emancipada aos 18 mas nem é isso que eu quero contar a você neste texto. Caro leitor, perdoe me a divagação mas é assim que meu cérebro funciona. Um emaranhado de coisas que aparecem na hora errada e saltam pelos olhos, saem gritados pelo meu silêncio. A vida não está fácil para mim. Sei que para muita gente está pior mas isso não consola a mim. Uma das minhas utopias é a de que as coisas deveriam estar nos seus lugares. Ninguém deveria passar fome, frio, sede, amor. Ah , o amor. Este é a junção metafórica da fome, do frio, da sede. E a saudade é o prato de entrada. E quem sofre de amor não tem sobremesa. Engano meu pensar que o amor era só uma história que me contavam para eu dormir. O amor tira o sono, o sorriso. Mas não falo de qualquer amor. Falo aqui do amor não correspondido. A fome do ser amado, a sede de uma água proibida ou inalcançável, o frio da ausência dos braços quentes da companhia. O frio do coração vazio. A saudade do alento perdido. E a gente sempre imagina que a sorte virá num realejo. Tenho 10 minutos a menos de divagação porque perdi o horário e me atrasei para a sessão. Não consigo cumprir horários, foi no meu atraso que perdi um amor, mas não passei fome, nem sede, frio talvez. A sorte não me apareceu como um realejo. Meu doce alento continua perdido. Contudo aprendi que eu me atrasei mas que agora acertei o relógio e descobri que não tenho tempo para um amor não correspondido. Não me submeto a perder horas de sono por ninguém (amores). Estou emancipada de você, meu bem. Ainda comerei o prato frio da saudade, mas estou saciada. Cheia de você. 
5 de agosto de 2014

Se algum dia vier a me encontrar

Caro leitor, não quero cansa-lo com um texto enfadonho. Peço-lhe que se não tiveres paciência de ler-me busque algo mais produtivo. São exatamente 5 e 17 da madrugada de um agosto não muito quente. Venho desabafar neste jardim quase deserto as divagações da minha mente. Quero aqui falar dos amigos que nunca tive, dos que tive e dos que quisera ter, dos que tento ter. Mas os que tenho não farão muita parte deste texto. Pois se já os tenho não há muito o que dizer que caiba em um texto de madrugada.
Quantas pessoas passam por nossas vidas? Dá para contar? Lembro me bem da aflição do primeiro dia de aula no Colégio Militar, não, não era aflição. Era uma ansiedade tola que se me lembro bem não tive medo. Mas eu não estava sozinha, uma colega do antigo colégio também estava lá. Não éramos bem amigas mas conhecíamos uma a outra desde a alfabetização. Isso bastava, um rosto conhecido reconforta. Mas o que fazemos hoje com os rostos conhecidos? Não lembro de ter tido muitos amigos no primeiro ano naquele Colégio. Nunca fui lá muito boa em comunicar me dialogalmente.
E às vezes "a gente se pergunta porque é que não se junta tudo numa coisa só". Fui feliz, fui triste, tive problemas e soluções. Poucas coisas me recordo dos tantos anos que estudei naquele Colégio. Não sou de sentir saudade mesmo estando já há quase um ano sem lá pisar ou rever os velhos amigos. Espero que minha memória não apague as coisas ruins que me aconteceram para que possa servir de exemplo para os filhos que eu vier a ter. Que não apague as boas lembranças pois delas vem a felicidade mais nostálgica.
E as faces com as quais convivi por anos? Alguns morrem, outros entram por caminhos obscuros e ninguém imaginava que aquele pacato hoje seria quiçá um grande estudioso da física, na medicina, das letras. São pessoas que fizeram parte das nossas vidas. E o que fazemos com elas? É certo que a distância, a mudança de rotina e de realidade afasta. Mas a vontade que tenho é de abraçar todos que da minha vida parte fizeram.
Não guardo mágoa daquele garoto que fazia bullying comigo e mais tarde ele confessou me que era apaixonado por mim desde muito tempo. Sim, ele me fez sofrer. Mas o que posso dar a ele? Ah, e aquela garota fotografa? Quem diria, para mim ela jamais seria uma amante das artes. Aquela mesma que era minha amiga confidencial e anos mais tarde me empurrou dentro do ônibus.
Tive tantos bons momentos dos quais lembro-me de poucos. Minha memória me trai. Parece que ela está regulada para lembrar de nostalgias tristes. Não quero mais isso leitor. Se você sabe como fugir. Como me achar em uma foto velha daquele nosso trabalho de dança. Encontre me e saiba que eu agradeço de coração por você ter existido na minha vida. Porque a vida é feita desses clichês, dessas coisas que a gente julga inútil. A vida é feita de momentos e os sorrisos. Ah, os sorrisos! São as pequenas dádivas de Deus a nós todos os dias, presenteando nos com a presença de alguém que talvez nem vá se lembrar do seu nome num futuro distante.
Dos amigos que tive carrego grande admiração, por todos. Grande curiosidade pela maioria. Os que tento resguardar com dificuldade creio que se tornaram os melhores de toda a minha vida, ou os mais presentes. Afinal, quando é difícil demais conseguir uma coisa não se desiste fácil dela quando se tem. Aquela garota ou garoto que eu admirava e nunca tive coragem de falar um 'oi' por uma timidez boba, não faz mal. Talvez eu nunca mais os vejo e se os vir não venham a passar de desconhecidos ou talvez futuros amigos.
Contudo, se você chegou aqui até o final deste texto da minha divagação de terça-feira feira, obrigada! Quero parabeniza lo por tamanha determinação. Eu daria a ti um grande abraço se pudesse, e se puder me cobre o abraço. Claro, se você gostar de abraços. Essas lembranças vagas nos pegam assim tão de surpresa, mas a verdade é que elas estão sempre ali prontas a martelar nossas cabeças sem mais nem menos. Talvez de bonito ou proveitoso este texto contenha apenas uma frase. Mas se você leu e me conhece e se me vir passar na rua e lembrar se do meu nome diga algo ou simplesmente sorria. Se me encontrar em um ponto de ônibus faça me companhia, converse comigo, convide me para ir ao cinema. Mesmo que eu não possa aceitar o convite ou que eu não cumpra quando te prometi que diria oi no chat do facebook. Ultimamente ando odiando essas redes. São úteis para aproximar os amigos que moram a longas distâncias mas muitas vezes deixam enfadonho como este texto aquela conversa que talvez teríamos em meio a risadas no caminho de ônibus para tua casa.
Não faz mal que não lembre o nome ou a ocasião de quando conheceu se determinada pessoa mas há valor em tudo, em cada perfume que passou na nossa vida. As pessoas são mesmo como plantas, deixam suas lembranças em nós, seu perfume, sua semente. São um jardim particular de Deus. São partes repartidas, separadas mas nunca isoladas. São parte das memórias que temos dos nossos dias. São apenas pessoas, singulares no plural mas que são capazes de deixar um pouquinho de si nas outras concluindo que ninguém vive sozinho quando se tem vontade de viver e não apenas existir. Agradeço a presença dos perfumes que vieram a florear minha vida pois é deles que tiro inspirações de ser melhor a cada vivência.
Se um dia vier a me encontrar seja um clichê barato, faça me rir, deixe uma memória em mim. Um abraço que seja. Uma demonstração de que eu existi.
4 de julho de 2014

As (entre)linhas e a ausência delas

Ando em constante luta entre razão e seja lá o que for o resto que faz doer órgãos que nunca imaginei que saudáveis poderiam ressignificar a dor. Falta ar mesmo com os pulmões cheios, dói o coração, o estômago parece estar cheio de intrusas borboletas lutando para subirem pelo esôfago e saírem pela boca. O coração ininterrupto segue após uma "parada cardíaca cerebral", batendo na caixa torácica e querendo sair pela boca carregado pelas borboletas. O por que disso tudo?  Porque simplesmente eu deixei as entrelinhas falarem por mim. Ou a ausência delas falarem por si. A boca seca a fala sessa e as linhas enchem se de frases sem contexto. E foi mesmo fora de contexto que o sentimento surgiu. Não havia motivos para estar ali. Foi numa manhã de quinta-feira feira quando eu o vi na padaria e ele me perguntou se eu gostava de pão de queijo. Eu disse que sim e ele disse que minhas bochechas eram fofas como dois pães de queijo.  Uma piada infeliz que me deixou desconcertada porque eu achei que meu amigo de infância estava curtindo comigo enquanto já tínhamos conversado sobre piadinhas. Mas relevei  porque parte de mim achou fofo ter uma cara de pão de queijo. Eu poderia ter escolhido achar a piada dele ofensiva mas deixei a observação de lado. Mas não foi ali que o sentimento surgiu? Nunca se sabe. 
A paixão não tem data ou hora marcada, ela entra sem convite e quando percebemos ela está ali num cantinho do peito fazendo morada há muito tempo. Mas foi numa tarde de terça-feira que talvez ela tenha pedido um espacinho dentro do meu peito.  Naquela tarde ensolarada em que ele me chamou para andar de bicicleta no calçadão e eu aceitei com um sim cabisbaixo que pareceu mau gosto. Aquela tarde em que dar um passeio para desestressar foi apenas uma desculpa para me tocar com suas mãos calorosas. Mas foi ali naquele olhar caloroso e aflito que o sentimento nasceu? Foi naquela amizade inocentemente infantil? Mas a infância não é de todo inocente. Lembro me que nós éramos namoradinhos no primário. Dávamos as mãos como outrora recente e parecia que nunca teria fim. Seria ali onde a sementinha do sentimento nasceu? Nada podemos afirmar, porque paixão é vida dentro da gente.  Uma vida viva e independente. E aquele olhar caloroso que se transformou em um beijo apaixonado, que tocou uma parte de mim que eu não sabia que existia, a parte que a mim não pertence. A parte que hoje a mim incomoda. 
Eu com os olhos arregalados e o coração a bater a mil por segundo perguntei lhe aflita o que era aquilo. Ele com o mais ingênuo sorriso disse com sarcasmo como ainda quase o ouço "ora, isso se chama beijo. Você gostou?",  bati com uma força banal no ombro dele dizendo "explique me o que foi isso ou..."   e ele interrompendo me "se você não gostou pode me devolver meu beijo". Naquele momento eu entendi ou quase compreendi quando eu o perguntava como as garotas caiam no papo dele. De cabeça baixa relembrei de quando ele chorou deitado com a cabeça nas minhas pernas pela garota que ele tanto dizia amar mas que o traiu com o primo dele. Não era a paixão pela ex namorada ainda recente? E ele a me cutucar dizendo "quando é que vamos te desencalhar". Um fluxo de memórias me fez perder a noção do espaço ao meu redor. Ele acariciou meu rosto dizendo "perdoe me, acho que eu não deveria ter te beijado". Em lágrimas olhei o "mas por que beijou?" , eu estava confusa não sabia se foi ali que o sentimento apareceu ou se ele já existia e tinha apenas acabado de germinar a sementinha da paixão. Minha vontade era apenas de abraça lo como nunca antes, agora sem nunca mais soltar. A ausência de contexto logo transformou nosso relacionamento lindo em brigas e feridas que ainda estão abertas. Ninguém o conhece mais que eu, nem mesmo a mãe dele e igualmente ninguém conhece me mais que ele. Esse saber excessivo que levou a tantas brigas. O meu mau gênio e a mania de querer saber demais, minhas linhas tortas não andavam em paralelo com as linhas dele. Agora nossas vidas não estavam sendo apenas vidas cruzadas. O espírito aventureiro dele e o meu medroso jeito de me arriscar sempre com os dois pés atrás fez um emaranhado de linhas. Em meio a tantas brigas e momentos de infinitos amores eu buscava o fio da meada para desenrolar aquela situação muitas vezes agradável embora desgastante. 
Não encontrei o fio da meada mas descobri que a meada pode ser cortada. A tesoura que encontrei foi o tempo. Terminei com aquilo mas ainda sou refém dos sentimentos. Ele ainda me considera sua confidente e eu não confidencio a ele que o amo apesar dos pesares. Não há como saber se ele realmente superou, afinal ele sempre foi um bom mentiroso. Foi com ele que eu aprendi. As lembranças me levam a pensar que foi ali entre as linhas do pôr do sol, entre as linhas do calçadão,  entre as fibras do coco no refresco da água em minha boca seca sem palavras, entre o limiar dos olhares que nossas vidas se emaranharam. Entre as linhas ou na ausência delas. Porque paixão é isso mesmo, é uma bagunça de fios sem contexto em que às vezes o melhor a fazer é cortar mesmo quando a tesoura deixa uma parte do outro na gente. A parte que a nós não cabe mas às vezes pertence. Uma ausência com presença que se coloca no lugar como a planta dentro da semente. Sabendo que ela não cabe mas ali mas só por existir é seu dever fingir ausência. 
3 de julho de 2014

Apenas metáforas


Eu não sabia que era capaz de perdoá-lo. Depois de tudo que ele fez, a farsa, as mentiras e mesmo sem ter admitido o próprio erro ou ter me pedido desculpas eu desculpei-o. O que sinto agora é uma imensa vontade de descobri-lo. Eu poderia simplesmente ir até ele e pedir uma explicação que eu sei que ele nunca dará. Mas não posso, não é orgulho é só proteção. Ele nunca foi sincero comigo ou pelo menos em grande parte não foi. Não é certo eu correr atrás de um mentiroso que pode destruir ainda mais meus sentimentos. Meu desejo é que ele viesse até mim pedindo perdão e dizendo que sente muito e que sente algo por mim. Eu duvidaria, mesmo que uma dúvida fingida mas sentiria uma... Não sei o que sentiria, nunca fui a pessoa que sente mas sou a pessoa que imagina. Por mais dolorosa que foi essa experiência de ser enganada parte de mim ficava feliz por ele sempre ter estado tão perto, mesmo que eu não saiba quem ele é de verdade. Resta-me agora apenas escrever o que tanto preciso esconder. Mais uma vez ocuparei os esconderijos do meu coração. Aqueles que por tanto tempo deixei de portas fechadas e tornei-me mais transparente inutilizando-os. Agora tais caverninhas do meu ser voltam a estar ocupadas. Na caverna maior habita uma vaca muito sábia, intocável e sagrada, uma flor que nunca murcha e que nasceu entre pedrinhas e espinhos. A flor abriga uma fada de asas douradas que está morrendo. A fada chama-se Esperança. A flor é seu abrigo mas suas pétalas a sufocam por mais macias que sejam. A flor imortal floresce, ela deseja incessantemente ser arrancada dali. Ela quer sair daquela caverna e florescer em meio à luz do sol e ao brilho do luar. A vaca a vigia e não deixa que nenhuma criaturinha da noite a colha e leve-a para fora da caverna. A esperança padece e o vento frio adentra a caverna gelando meu peito. Mas são apenas analogias que faço para desgrenhar os fios das meadas em meados do meu ser. Apenas analogias.

Vocabulário metafórico: vaca=razão, fada=esperança, flor=sentimentos e emoções.
23 de junho de 2014

O construtor de utopias



Um engenheiro do próprio destino fez de sua existência a própria poesia ambulante. Com todo o saber da matemática, calculou minuciosamente os segundos para dizer palavras doces para a boca e medicina para a alma. Com a física aprendeu que toda ação possui uma reação. Amou para ser amado e foi amado e amou. Para ele a inercia é arrebatadora. É como o silêncio se não houver palavras ou ações. Tudo permanece como está e não adianta reclamar se nada aconteceu pois cada essência de cada ser humano é a força motriz da mesma existência. Tudo é imutável onde a essência de cada ser padece desesperançosa. O desenho é fundamental para que uma construção seja feita. Desenhar a vida é muito mais do que simplesmente construir uma história, é seguir os moldes do saber, do pensar, do agir, do falar, do sentir... Moldes criados por si e para si. Moldar a vida é um ato de flexibilidade, mais flexível que a engenharia porém mais complexo. O engenheiro segue corretamente as regras para que sua construção seja concluída com sucesso. Superar as leis da física um engenheiro qualquer não seria capaz. Entretanto, um construtor de poesias supera tudo, tudo que vá além do seu eu poético. Plantou - se um jardim em um prédio. Ah , quem diria! Um jardim vertical! A beleza de poesia expressa em uma parede fria. A coisa mais linda que já vira. Flores exalando seu aroma, perfumando a cidade e o coração do engenheiro de cálculos infinitos. Um construtor qualquer deseja que sua construção seja imensamente valiosa e reconhecida. O construtor de utopias quer ser jardineiro e cultivar um jardim em cada esquina. Ele quer que o perfume das flores alegre cada essência humana por onde ele passar. Vasculhei nos becos escuros e também onde havia mais claridade na imensidão do universo. Porém só encontrei nas utopias infinitas essências de uma fantasia especial construída com amor, algo surreal e surpreendente. Achei nos becos relatos do coração a mais bela construção. O mais caprichoso construtor de utopias surreais, enfim quis seguir para os fins da eternidade. Utopia, infindável poesia, profunda melodia onde não há som, ondas mecânicas que quebram as paredes do coração. Não importa se há de ser inalcançável os sonhos que se tem. Construir utopias é ser engenheiro da própria vida, sonhar é preciso para que não se deixe padecer a essência que se tem, a essência da vida. Poetizando os becos escuros por onde há de se passar.     
2 de dezembro de 2013

Uma tarde de saudade


Saíra do apartamento andando sem rumo pelo corredor entre os prédios, fizera uma caminhada de uns 20 minutos que parecera uma vida inteira. Tentara ocupar o tempo ou distrair se com um jogo bobo no smartphone mas não conseguira, sentira um sentimento estranho que não lhe causara dor nenhuma. Sentimento que causara-lhe uma inundação de memórias.
Estivera com ele em um dos melhores dias de sua vida, fotografara em muitos lugares do condomínio, em locais que olhos comuns diriam ser horríveis e desajeitados, lembrara das poses que fizera e dos sorrisos que tirara dele naquela tarde nublada. Lembrara do olhar vivo dele e do batom que usara, aquele tom de vermelho tirara um "uau" da voz dele, lembrara do all star vermelho que usara naquela tarde, da camiseta do filme star wars e da saia cheia de estrelas como uma galáxia, sentira o perfume adocicado que usara naquela tarde.
Depois de sentir-se sentira o perfume dele e a doce melodia daquela voz que parecia cantar as mais belas notas já inventadas no universo. Lembara da roupa que ele vestira, àquela camiseta branca com estampa do disco The Wall da banda Pink Floyd que ele tanto gostava, aquela calça jeans sempre fora apenas uma calça mas naquele dia nublado era a calça mais bela que já vira. Sentira o abraço quente e desajeitado dele, sorrira. Sentiu-se confortável com o calor dele fizera um pouco de frio naquela tarde mas nada de pedisse um agasalho para cobrir sua linda camiseta.
Recordara-se de gravar uma playlist idêntica à sua no iphone dele e sair cantarolando as músicas juntos e dando gargalhadas e às vezes sorrisos envergonhados quando a letra tocava os sentimentos. Sentiu o beijo quente dele e ...
Acordou do seu sonho, tudo aquilo havia acontecido mas agora ele estava longe demais para ficarem juntos. E ela era apenas uma garota dominada pelo cansaço dormindo no banco do pátio do condomínio. Triste ?! Não, ela estava muito feliz, estava feliz por reconhecer pelo menos na hora do adeus que ele realmente amara ela, estava feliz por reconhecer que apesar de nunca achar que era boa o bastante para o seu amigo. Deu a ele o que sempre quis. Um beijo! Arrependeu-se por deixar com ele um gosto maior de saudade e escreveu um e-mail :

O vento bate em meu rosto e ando na estrada vazia lembrando me de tantas coisas, de como foi estar aqui em outros dias de sol. Desculpe se perdi algumas memórias, sou uma caixinha de imperfeição como você sempre me dizia, sou a anormal e você o normal e é por isso que juntos somos perfeitos. Quero que saiba que sempre te amei mas sempre achei que você poderia encontrar um pessoa melhor que eu. Não sei se você voltará e pensando bem podemos prosseguir sem estarmos presencialmente juntos. Espero que seja feliz com seu pai na Alemanha e com sua faculdade. Sempre seremos amigos e me perdoe por nunca compreendê-lo ou acreditar no que você dizia. O tempo e as experiências nos faram amadurecer e logo logo você se lembrará de mim apenas como sua melhor amiga e não como alguém por quem você se apaixonou. Mande notícias. Um abraço, Aline.

Aquele e-mail cheio de poesia nunca fora enviado. Levantou-se do banco sentindo saudade e ficou feliz por perceber que quem tem saudade tem amor.


(Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, eu inventei tudinho.)  

19 de junho de 2012

Superar: Super ar !

Superar, su.pe.rar = subjugar, sujeitar, vencer.Ficar superior a, levar vantagem a, sobrelevar a.Exceder, sobrepujar.
Superar não é esquecer. Super Ar.



Tomou todo o ar que podia e encheu seu peito de novas decisões, tornou - se forte, imponente, poderosa, superpotente. Encheu seu peito e naquela tarde
 de domingo respirou diferente, pensou diferente, amou diferente, nasceu novamente. Nasceu de si mesma, saiu do interior daquele corpo figurativo que talvez chamasse mais atenção que o necessário. Se irradiou de todo o sol que podia, tornou - se o sol, meigo e caloroso das tardes de domingo de primavera. O sol se vai, mas o brilho nunca se apaga. 
Naquele domingo acordara tão menina, meiga e inocente, tão mulher, poderosa e decidida, tão viva, tão radiante. Sobrepôs tudo que havia em si, tudo que ela tivera de ser seria, respiraria, viveria. Nada de baixa estima, agora a única coisa que ficaria em baixo em sua vida eram as solas dos pés nos dias de dançar na chuva. 
Jogou tudo para o alto e não se permitiu escolher a dedo as novas fases da vida, não se permitiu planejamentos exagerados, afinal nada que fizesse a perder tempo era necessário. Intensamente naquela tarde de domingo superou tudo que a machucava, e entendeu que superar é tomar todo o ar possível, encher os pulmões e se permitir ser melhor que as dificuldades. Superar é mostrar aos problemas que Deus é maior que eles, superar é respirar diferente, é saber ser diferente mesmo sendo a mesma.
Superou os dramas da vida adolescente e agora mais do que nunca era mulher, de pulso firme e decisões sensatas, mulher de pouco tempo para babaquices, mulher sem paciência para decepções, ser mulher não é apenas ter idade e superar não é esquecer. Superar é lembrar - se sempre afinal a mente humana é desafiadora, superar é lembrar - se sem deixar abalar - se pelas velhas emoções. 
Como ela um dia desejo superar os desesperos, superar as fortes emoções, encher - me de um ar brando que apesar de ser o mesmo ar de antes que saia diferente e não me torne mais tão indiferente. Super ar, o ar que saiu daquele peito com ares de luar, diferente como o cheiro da margarida suave. Leve como a brisa, superar e amar, amar incondicionalmente sem esperar nada em troca, navegando entre as flores de um jardim de sonhos e imaginação que não sejam ilusão. "Superar não é esquecer", disse - me uma velha sábia, "superar é amar, é perdoar, é ser feliz e deixar as desilusões no passado fazendo - as esquecidas. Desejo o super ar que ela respirou em uma tarde de domingo de primavera. Desejo. Tenho. Tomo para mim o super ar com ares de luar, de superar!