26 de janeiro de 2014

Tapa-buracos


Viemos de fábrica zerados, sem nenhum defeito aparente. Mas ao crescermos somos moldados pela educação de nossos pais e pela própria natureza humana. Decidimos o que faremos com nossa vida e às vezes o que fazer com a vida alheia. Somos humanos, cheios de erros e defeitos. Humanos cheios de consequência. Humanos que aprendem a andar sozinhos, a pensar sozinhos - quando a alienação permite -, humanos que aprendem a usar a pior das drogas, apaixonar-se. Droga que abre crateras em nós e forma grandes erosões e que faz de nós cavadores de vida alheia ou da nossa própria. 
Humanos cheios de orgulho e preconceito. "Este não é bom o bastante para mim". "Este é pobre consequentemente um alienado". Rotulamos as pessoas para que elas façam sentido em alguma parte do mundo. Ou para apenas tirar de nós o peso da dúvida de existir. Afinal, todos devem fazer sentido - discordo! Mas sinceramente as pessoas não fazem sentido algum e apenas o que elas são capazes de sentir faz menos sentido ainda que as próprias. O tal do sentir. O tal desconhecido sentimento que aproxima quem está longe mesmo que doa. Uma dor abstrata que é tão real como um infarto do miocárdio ou um traumatismo craniano.
Nós, realmente "nós" não faz sentido. A gente também não ! Junto ou separado, a gente não faz sentido de existir. Se um de "nós" não teve motivos para amar - talvez não aparente - apenas deixou - se levar pelo embalo de um sentimento sem sentido então faz sentido. Ou o sentido de ter se apaixonado foi apenas um tapa buracos para uma vida solitária ou outra lotada de desilusões e decepções. 
Ninguém, absolutamente ninguém quer fazer sentido sendo o tapa-buraco de uma alma triste. Brincar de fazer sentido não faz sentido porque absolutamente não faz sentido ter sentido para tudo. Observo o cansaço dos que buscam um sentido para sentir, desde que o sentido não seja procurar algo que tampe suas dores em outra pessoa. Não há sentido em sentir "a gente" apenas sente. 
Pessoas não são remédio, não são álcool, não são droga - claro que há exceções das que conseguem ser tudo isso juntas. Pessoas não são tapa buracos, é um pena que outras pessoas não saibam desta útil informação. Pessoas sentem e não gostam de se sentir apenas o ópio de outras, a cura temporária. O remédio enquanto a verdadeira cura não vem. Enquanto nada melhor acontece amar é prosa e poesia. 
Sentir tem seus custos. Brincar de se apaixonar é crime. Forçar se a gostar de alguém para esquecer de sentir as antigas dores é o útil e imundo trabalho do tapa buracos. Que vá para o inferno quem ouse usar outros para tapar sua feridas. Ou que seja perdoado e atire a primeira pedra quem nunca o fez. Tapar não cura, talvez apenas pare de latejar a dor. 
E que problema há em ser tapa buracos de alguém ? Desde que você não saiba não há problema algum. Mas se souber... Sinto muito mas vai doer. Doer muito. Afinal ninguém quer ser apenas um curativo. Merecemos ser a cura, desde que seja reciproco. Reciprocamente possível, para que não doa a saudade. Pois saudade mal curada se enterra com porres, com falsos amores, com aventuras perigosas, com ópio - o ópio de outros tapa-buracos, com adrenalina, com tudo que distancie o pensamento do sentimento. Tudo que faça por segundos esquecer o sentir. 
14 de dezembro de 2013

A menina dos olhos cansados


Andava com tanta tralha que ninguém se oferecia para ajudar a carregar por medo de não conseguir. A menina dos olhos castanhos tinha por volta de seus 17 anos. Tão despreocupada, sem neurose por beleza não se importava em manter os cabelos penteados. Tão tímida essa garota me intrigava diariamente. Eu nunca fui do tipo de garoto que repara em meninas tímidas. Aliás as tímidas nunca fizeram meu tipo mas havia algo que me chamava atenção na garota dos olhos cansados. Passei a repará – la todos os dias no intervalo. Ela sempre estava sozinha mas isso não significava que ela não tinha amigos. A garota sentava – se todos os dias em um banco pintado de azul no patio arregaçava as mangas do agasalho e ficava encarando o nada com fones de ouvido e as vezes um livro ou um caderno nas mãos. O sol em seu rosto todas as manhãs parecia essencial para aquela garota. Ah, quando chovia ela sentava – se na arquibancada da quadra poliesportiva e continuava fitando o nada que agora era chuva. Se algum de seus colegas chegasse e sentasse junto a ela no banco ela dava uma atenção que me intrigava mais ainda. Mostrava total interesse no assunto e quando a companhia ia embora ela voltava a fitar o vento. Eu também nunca fui do tipo de garoto que tem um lugar para ficar, sempre estava por aí andando e conversando com pessoas menos interessantes que a garota do banco azul. Eu nunca deixei de repará – la desde o dia que percebi que ela sempre estava ali, ao menos por um minuto eu teria que passar perto e repará – la, mas nunca deixei que nenhum dos meus amigos percebesse que eu olhava para ela todos os dias. Os meses se passavam e ver aquela garota era essencial para mim. Não sei que doença foi essa que meu cérebro desenvolveu que se eu não a visse passava o dia desanimado. Acho que já estava ficando louco ou neurótico. Que estupidez a minha, eu nunca fui um cara tímido podia muito bem chegar nela dizer um “oi” e perguntar seu nome. Geralmente não era necessário perguntar o nome das pessoas no meu colégio pois as camisetas tinham o nome bordado. O que me intrigava mais ainda, fazendo frio ou calor a garota sempre estava de agasalho.
Passaram – se seis meses e a garota continuava ali com sua mesmice. Eu sempre notava algo diferente quando havia, como aquela corrente que ela apareceu usando em uma segunda-feira. Outro dia notei que ela estava usando óculos, achei que ela ficou bonita usando óculos. Mas foi só por alguns dias porque depois acho que ela começou a usar lente de contato pois nunca mais a vi usando óculos. Em uma quarta – feira esqueci de disfarçar e me perdi nos olhos cor de mel da garota. De repente a garota sem nome encontrou meu olhar no dela e sua reação foi perturbadora. Ela levantou – se rapidamente e vi suas bochechas enrubescerem em um rosado tão angelical que me fez sonhar à noite. Sonho perturbador, por que eu não conseguia parar de reparar aquela garota? Por que eu não tinha coragem de dizer um “oi”? Eu nunca fui um cara tímido. Depois desse episódio não vi a garota por quase um mês. Senti uma preocupação arrasadora por àquela desconhecida. Resolvi contar tudo a minha melhor amiga que era meio metida a psicologa, uma maluca completa na verdade. Minha amiga disse que eu sofria de amor platônico. No começo eu não quis aceitar mas depois de algumas pesquisas pela internet aceitei o que eu sentia por ela. Uma loucura, geralmente são garotas que se apaixonam platonicamente.
Em uma tarde de sexta – feira, dia de aula no auditório deitei – me no chão próximo à porta e fiquei pensando em formas de atrair a garota até mim. Quando virei para ver o movimento no pátio dei com o olhar na garota que estava sentada de frente para mim. Levei um susto e percebi um meio sorriso naquele rosto de olhar cansado. A cada dia cada vez mais linda e seu olhar cada vez mais cansado e distante.
Resolvi colocar minha melhor amiga em ação. Pedi a ela para procurar a garota e tentar aproximar – se dela. No começo ela não aceitou a ideia mas depois lembrei – a que ela só tinha passado em matemática porque a ajudei. Foi tão inútil a ajuda da minha amiga. A garota dos olhos cansados tão indecifrável ignorou minha melhor amiga totalmente todas as vezes que ela tentou se aproximar. Eu estava cada vez mais triste por não conseguir me aproximar da garota e tentava tapar o sol com a peneira beijando todas as moças que quisessem um beijo meu. Estupidez a minha, não dava para trocar sorvete por jiló. Que comparação idiota, uma moça tão perturbadora e intrigante com toda certeza era melhor que minha sobremesa favorita.
Em uma terça-feira de inverno chequei meu e-mail para ver se havia algo novo sobre o jogo que eu jogava. Havia um e-mail anônimo, achei estranho por não estar no lixo eletrônico pois geralmente e-mail anônimos são spans. Lá estava a coisa mais inesperada da minha vida. Um e-mail da garota dos olhos cansados.

Não que eu não ache você interessante, mas é só que eu não estou interessada em conhecer você. Não quero que saiba meu nome nem mande sua amiga bisbilhotar minha vida. Eu sei que você me vigia e procura a cada intervalo uma chance de falar comigo. Não sei qual o seu problema, pois há tantas garotas interessantes e você perdendo seu tempo percebendo uma garota como eu. Não pense que foi sua melhor amiga que mandou esse e-mail para você parar de ficar com essa neurose e nem queira saber como eu descobri seu e-mail. Só digo que foi muito difícil. Talvez nunca mais você me veja, pois mudarei de cidade esse fim de semana. Um até logo! De A...

Droga ! Como ela pode fazer isso comigo ? Está tão na cara que eu reparo nela todos os dias ? Lembrei – me da voz de minha amiga “todos os dias você está com mais cara de retardado que no dia anterior reparando essa garota, todo mundo já percebeu mas ninguém tem coragem de se meter com você por causa da sua fama de ter batido naquele garoto que se meteu com meu irmão, sorte a sua porque até eu zoaria você em publico se não fosse constrangedor o bastante para você nunca mais falar comigo (risos)”

Realmente, nunca mais a vi mas aquela garota nunca saiu do meu pensamento. Aquele olhar cansado, talvez entristecido e muito indecifrável nunca saiu da minha memória. Espero um dia encontrá – la e amá – la como a amei tão desconhecidamente, como nunca amei ninguém. Um amor de alma, talvez muito mais verdadeiro do que platônico. Nunca entenderei aquele e-mail e nunca a entenderei, afinal é preciso conhecer muito mais que um olhar cansado para entender uma pessoa mas é preciso apenas ver com os olhos da alma para amá – la. Se A for a inicial do nome dela como suponho que seja, nada terá sido tão perfeito quando viver esse Amor desconhecido, sofredor mas valioso. 
2 de dezembro de 2013

Uma tarde de saudade


Saíra do apartamento andando sem rumo pelo corredor entre os prédios, fizera uma caminhada de uns 20 minutos que parecera uma vida inteira. Tentara ocupar o tempo ou distrair se com um jogo bobo no smartphone mas não conseguira, sentira um sentimento estranho que não lhe causara dor nenhuma. Sentimento que causara-lhe uma inundação de memórias.
Estivera com ele em um dos melhores dias de sua vida, fotografara em muitos lugares do condomínio, em locais que olhos comuns diriam ser horríveis e desajeitados, lembrara das poses que fizera e dos sorrisos que tirara dele naquela tarde nublada. Lembrara do olhar vivo dele e do batom que usara, aquele tom de vermelho tirara um "uau" da voz dele, lembrara do all star vermelho que usara naquela tarde, da camiseta do filme star wars e da saia cheia de estrelas como uma galáxia, sentira o perfume adocicado que usara naquela tarde.
Depois de sentir-se sentira o perfume dele e a doce melodia daquela voz que parecia cantar as mais belas notas já inventadas no universo. Lembara da roupa que ele vestira, àquela camiseta branca com estampa do disco The Wall da banda Pink Floyd que ele tanto gostava, aquela calça jeans sempre fora apenas uma calça mas naquele dia nublado era a calça mais bela que já vira. Sentira o abraço quente e desajeitado dele, sorrira. Sentiu-se confortável com o calor dele fizera um pouco de frio naquela tarde mas nada de pedisse um agasalho para cobrir sua linda camiseta.
Recordara-se de gravar uma playlist idêntica à sua no iphone dele e sair cantarolando as músicas juntos e dando gargalhadas e às vezes sorrisos envergonhados quando a letra tocava os sentimentos. Sentiu o beijo quente dele e ...
Acordou do seu sonho, tudo aquilo havia acontecido mas agora ele estava longe demais para ficarem juntos. E ela era apenas uma garota dominada pelo cansaço dormindo no banco do pátio do condomínio. Triste ?! Não, ela estava muito feliz, estava feliz por reconhecer pelo menos na hora do adeus que ele realmente amara ela, estava feliz por reconhecer que apesar de nunca achar que era boa o bastante para o seu amigo. Deu a ele o que sempre quis. Um beijo! Arrependeu-se por deixar com ele um gosto maior de saudade e escreveu um e-mail :

O vento bate em meu rosto e ando na estrada vazia lembrando me de tantas coisas, de como foi estar aqui em outros dias de sol. Desculpe se perdi algumas memórias, sou uma caixinha de imperfeição como você sempre me dizia, sou a anormal e você o normal e é por isso que juntos somos perfeitos. Quero que saiba que sempre te amei mas sempre achei que você poderia encontrar um pessoa melhor que eu. Não sei se você voltará e pensando bem podemos prosseguir sem estarmos presencialmente juntos. Espero que seja feliz com seu pai na Alemanha e com sua faculdade. Sempre seremos amigos e me perdoe por nunca compreendê-lo ou acreditar no que você dizia. O tempo e as experiências nos faram amadurecer e logo logo você se lembrará de mim apenas como sua melhor amiga e não como alguém por quem você se apaixonou. Mande notícias. Um abraço, Aline.

Aquele e-mail cheio de poesia nunca fora enviado. Levantou-se do banco sentindo saudade e ficou feliz por perceber que quem tem saudade tem amor.


(Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, eu inventei tudinho.)  

Analogias (Parte 2)


Abalou. Tirou tudo de seu lugar. Como uma avalanche encheu-me de problemas, como enchem-se bolas de neve na junção de seus flocos. Encheu como são inundadas cidades em dias de enchente. Encheu-me, inundou-me, amou-me, ou tentou amar-me. Ou fingiu.
Súbitos tremores, como tremem os prédios e se despedaçam vítimas de um terremoto. Fui vítima, fui sua vítima e sentenciou-se um fim, o fim das minhas alegres emoções. Tomou-me e não deixou-me ir quando foi necessário. Deixou-me quando foi preciso ficar, em meio a soluços silenciosos que me deixavam trêmula e sem chão. Resguardei-me do mundo e me enchi de ti.
Não pude sentir... talvez tenha me amado tanto e tão profundamente, tão incondicionalmente, e perdida em meus erros não percebi. Nunca notei o quão alto as músicas tocavam no seu coração e eu presa no meu quarto frio não notei que o que afastava-me de ti era nada menos que eu.
Restou algo que não me abala, que deveria mas que fortalece. Os geisers de saudade que aparecem de tempo em tempo sob alguma pontada de sorriso envergonhado e que fazem-me recordar o clímax de nossa estória, àquele criado por mim. Criado em noites de nostalgia, clímax que nunca existiu. Um analogia sem fim de um cérebro cansado!


Oi galerinha, quanto tempo! Estou de volta relendo os textos guardados nos rascunhos e publicando alguns. Espero que gostem! Beijocas :*** Esse ficou bem pequeno mas como é uma serie terá a continuação. Aguardem! 
29 de julho de 2013

Entre aspas: METADE

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.



Metade, de Oswaldo Montenegro é uma música que ouvi recitada em forma de poesia por um professor de história chamado Rodrigo França. Bem acho que não tenho que acrescentar nada a essa poesia. Só deixo um recadinho seja você a sua outra metade que seu namorado ou namorada não seja metade mas o que te faz transbordar de sentimentos. Beijos, espero que volte sempre ao meu jardim! 
24 de dezembro de 2012

Especial de natal: músicas

Olá, eu sei que ninguém olha meu blog sempre e ainda menos em véspera de Natal mas separei alguns videos com tema natalino que eu gosto muito (: ou que me assustei, de qualquer forma tem para todos os estilos. Consagrei o vídeo da banda The killers o mais bizarro!




















21 de dezembro de 2012

Entre Aspas: Sem nome


Você precisa fazer alguma coisa, as pessoas dizem. Qualquer coisa, por favor, as pessoas dizem. O que não dá é pra ficar assim. Nem que seja piorar, nem que seja enlouquecer. Olho o rosto das pessoas. Tem os ossos, dai tem a parte de dentro. Tem os olhos e tem o fundo dos olhos. Da boca saem esses sons. De repente alguém encosta em mim. Pra perguntar com o quentinho da mão se estou ouvindo e entendendo. Sorrio e torço pra pessoa ir embora. Torço pra alguém chegar, só pra torcer bem pouquinho por algo. Mas dai a pessoa começa a falar e torço pra pessoa ir embora. Não tem o que fazer, não tem o que dizer, não tem o que sentir. Sou uma ferida fechada. Sou uma hemorragia estancada. Tenho medo de deixar sair uma letra ou um som e, de repente, desmoronar.

Quando toca uma música bonita, minha ironia assovia mais alto. Um assovio sem melodia. Um assovio mecânico mas cuidadoso, como tomar banho ou colocar meias. Outro dia tentei chorar. Outro dia tentei abraçar meu travesseiro. Não acontece nada. Eu não consigo sofrer porque sofrer seria menos do que isso que sinto. Tentei falar. Convidei uma amiga pra jantar e tentei falar. Fiquei rouca, enjoada, até que a voz foi embora. Tentei aceitar o abraço da minha amiga, mas minha mão não conseguiu tocar nas costas dela. Não consigo ficar triste porque ficar triste é menos do que eu estou. Não consigo aceitar nenhum tipo de amor porque nenhum tipo de amor me parece do tamanho do buraco que eu me tornei. Se alguém me abraçar ou me der as mãos, vai cair solitário do outro lado de mim.

Se eu pudesse usar uma metáfora, diria que abriram a janela do meu peito e tudo de bom saiu voando. Eu carrego só uma jaula suja e escura agora. Se eu pudesse usar uma metáfora, eu diria que tiraram as rodinhas dos meus pés. Eu deslizava pelo mundo. Era macio existir. Agora eu piso seco no chão, como um robô que invadiu um planeta que já foi habitado por humanos. Mas eu não posso usar metáforas porque seria drama, seria dor, seria amor, seria poesia, seria uma tentativa de fazer algo. E tudo isso seria menos.

Não briguei mais por você, porque ter você seria muito menos do que ter você. Não te liguei mais, porque ouvir sua voz nunca mais será como ouvir a sua voz. Não te escrevo porque nada mais tem o tamanho do que eu quero dizer. Nenhum sentimento chega perto do sentimento. Nenhum ódio ou saudade ou desespero é do tamanho do que eu sinto e que não tem nome. Não sei o nome porque isso que eu sinto agora chegou antes de eu saber o que é. Acabou antes do verbo. Ficou tudo no passado antes de ser qualquer coisa. Forço um pouco e penso que o nome é morte. Me sinto morta. Sinto o mundo morto. Mas se forço um pouco mais, tentando escrever o mais verdadeiramente possível, percebo que mesmo morte é muito pouco. Eu sem nome você. Eu sem nome nós. Eu sem nome o tempo todo. Eu sem nome profundamente. Eu sem nome pra sempre.

Autora: Tati Bernardi, escritora, roteirista, contista, cronista, tem um jeito próprio de se expressar já trabalhou para as melhores revistas e jornais do Brasil e atualmente é contratada pela Globo. Quem nunca ouviu falar nesse nome? Talvez você nunca ouviu o nome desse gênio mas com total certeza afirmo que já leu algo escrito por ela no perfil de alguma rede social daquela pessoa memorável que conhece os escritos da Tati. Escreve com um jeito próprio e revoltado de uma adolescente mas sabe ser forte e madura quando necessário Tati Bernardi é simplesmente uma das minhas cronistas favoritas.
14 de outubro de 2012

Analogias


Hoje voltei a escutar as músicas que prometi nunca mais ouvir, todas ainda me lembram você. Hoje voltei a escrever nesse site que ninguém lê e percebi que você ainda é uma das minhas inspirações para escrever. Talvez a única, se não, minha preferida. Desejei sentir teu cheiro que nem me lembro mais. Fantasiei minhas ideias sobre você. Não me lembro bem se tudo que dizia e como me fazia sentir amada era verdade. Não sei se sonhei, não sei se criei-o para tirar-me dos dias entediantes. Sei que foi embora, foi para algum lugar que não sei se sente minha falta ou tanto faz.  
Nostalgia cruel essa que me invade. Fantasiei demais, o que era para ser apenas recordado virou quase um pesadelo. O que me lembro de você não sei se criei ou se realmente existiu. Mas como saberia? Criei analogias sobre você, ideias inexistentes ou preexistentes floreadas de utopias, de loucuras.
Afoguei-me em recordações não sei se é tragédia ou comédia. De qualquer forma estou fria, apesar do calor insuportável dentro de casa. Nenhuma lágrima desceu, até que tentei, pela primeira vez desejei as lágrimas, os soluços. Nada veio, queria chorar para poder tirar o nó atado em minha garganta.
Esses elos que me prendem a você. Não sei explicar você apareceu como quem não quer nada e realmente não quis. Ou não viu o que ofertei, parece que a oferta foi pouca para você, apenas um coração cheio de ti. Talvez seu ego fosse grande demais e não pudesse suportar mais de ti em meu coração. 
Queria mais recordações e menos analogias, queria poder saber se aconteceu algo, se você realmente disse aquelas palavras doces ou aquela cantada engraçada, queria parar de sonhar com seu sorriso.
Porém é você que ainda me tira o sono e a concentração. Foi há quanto tempo? Nem me lembro, um ano, dois? Ah se nostalgia fosse droga, se já não é droga o bastante quando vem acompanhada com uma dose grátis de você sem tua presença, se é que me entende.
Fantasiei, sonhei, idealizei, amei, fiz analogias e utopias, perdi, perdi-me, perdi-te  em meio a nostalgia e a confusão. É trágico como nunca saberei o que realmente aconteceu...
Esse texto sempre será inacabado, assim como nossa história, algo que não acabou-se e nunca saberei se acabará.

Faço analogias pois essa é a maior consequência de minha pobre nostalgia surreal!      
4 de outubro de 2012

Entre Aspas: O que você quer ser quando você morrer?

Talvez sempre tenha sido assim: nossos pais, avós e outros antepassados desconectados viviam o que aparecia pela frente, surfavam nas ondas do destino, de vez em quando deixavam uma delas passar porque estavam distraídos ou preguiçosos, e um dia morriam. De sopetão ou com aviso prévio, eles morreram quando o coração parou de bater, igualzinho vai acontecer comigo e contigo, ainda bem.

O que mudou, além da idade média e causas dessa mortalidade, é que eles deixaram de herança suas calças com a barra gasta de tanto arrastar, um sofá rasgado, a poupança ou as dívidas no banco, a gilete enferrujada na pia, um vinil na estante, a lista de compras na geladeira e quem sabe cartas secretas de uma antiga namorada no fundo da gaveta.

Depois de mortos, os utensílios de uso pessoal dessa gente sortuda iam para o lixo, os pertences úteis para um bazar e as cartas poderiam até quebrar o coração da viúva, mas então eram queimadas e desapareciam, ou apenas desbotavam. Os mortos viravam memórias, anedotas, jargões, princípios transmitidos indiretamente pelas lembranças subjetivas de quem participou de uma parte de suas vidas.

Nem todos conseguiram manter uma reputação positiva, é claro, mas justamente o fato de não poderem falar por si mesmos lhes confere um certo benefício da dúvida. Quando eles morreram, levaram consigo peças fundamentais para que completemos o quebra-cabeça do que foi a vida deles.

As peças do nosso estamos deixando, todos os dias, em lugares da internet dos quais já não nos lembramos, sob a guarda de termos de serviço que não lemos.
Você já buscou algum nome no Facebook de alguém que morreu de forma repentina e virou notícia de jornal? Geralmente, o perfil dessa pessoa desconhecida é aberto, e ali você descobre qual foi a última coisa que ela digitou, vê as fotos das últimas férias dela, do casamento. Você encontra o blog dela, lê seus textos escritos naqueles momentos de mágoa descontrolada que provavelmente nem ela releu nos meses seguintes, pois seguramente se arrependeria de ter publicado aquilo para quaquer um ler.
Tenho medo de poucas coisas na vida. Morrer não é uma delas, mas perder o controle da minha vida porque a tecnologia é cada vez mais avançada me parece sinal de que nossa humanidade está perdendo a corrida. Você sabe em quantos sites tem perfil? Lembra da senha de todos eles? Já fez alguma busca nos arquivos da internet atrás dos seus rastros inapagáveis?
Não precisa levantar o dedo, eu sei que você já se arrependeu de algo que já deixou registrado na internet. Enviar para o mundo aquele pensamento que mal tivemos tempo de formular é fácil porque digitar na tela sensível a toque é mais rápido que refletir sobre o que realmente queremos dizer.
Completo 30 anos nesse mês. Metade deles passei online, primeiro em bate-papos e mensageiros instantâneos com primos, amigos, uma menina com Síndrome de Down na BBS e um garoto de Karachi que usava o apelido MA$E no iCQ. Desde os 18 produzo e publico conteúdo em texto, fotos, vídeos e até em alguns arquivos de áudio.
Há anos alguma lembrança sobre o que publiquei me vem à mente esporadicamente, e instantaneamente corro para checar quão público é aquele detalhe que eu, em certo momento, achei relevante expor a um nível que eu sequer consigo medir.
Há meses penso em escrever sobre isso, mas as ondas da vida são cada dia mais parecidas com as praias do Havaí do que com a nossa pacata Enseada, no Guarujá.
Há semanas eu engasguei durante uma despretensiosa soneca. Estava sozinha em casa, acordei com a garganta fechada, saltei da cama desesperada em busca de fôlego, e em poucos segundos já respirava normalmente. Talvez eu nem sequer tenha chegado perto da morte, e por isso tenha levado ainda um bom tempo para chegar ao décimo-primeiro parágrafo desse texto que tem martelado tanto na minha cabeça. Mas vamos morrer do jeito que escolhemos viver, e gostaria de refletir sobre a possibilidade de termos concordado em deixar nossas escolhas de vida nas mãos alheias.
Esse é o primeiro de uma série de textos que eu gostaria de escrever sobre esse assunto. Privacidade, auto-censura, segurança e também a insegurança são alguns dos fatores que merecem atenção nesse debate, além dos detalhes que eu ainda não cogitei e que vocês podem sugerir nos comentários. Em breve eu volto, se até lá eu não morrer ou me distrair…


Autora: Ana Carolina Moreno (1982) é graduada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (2006), com especialização em Edição em Jornalismo pela Universidade da Coruña (2009). Já trabalhou em jornais, revistas e sites de notícias no Brasil e na Espanha, além de ter experiência como correspondente internacional na Argentina, Cabo Verde, Chile, França, Suécia e Turquia. 


31 de julho de 2012

Arte nas unhas!



Quem não adora sair de unhas perfeitas e ver a cara das amigas babando pelas suas unhas? Ou quem já não babou arco-íris ao ver aquela mulher super elegante e diva com uma unha perfeita? Ou ainda, quem nunca invejou as unhas daquela artista? Pois é galera vou dizer a vocês que agora tudo é possível e ficar com unhas de dar inveja é bem simples basta ter criatividade, então nessa onda criativa separei umas imagens incríveis de unhas para você se apaixonar e se inspirar. Depois dessas espero que você se inspire de montão e mostre a sua manicure e peça para ela fazer igual, mas se você é uma expert em unhas (não é o meu caso) faça sozinha e saia por aí arranhando como uma diva :D   












 
  
 

E por ultimo as novas tendências que eu adoro as unhas flocadas e unhas de pelúcia! 


Imagens coletadas no site we  it