10 de junho de 2014

Entre Aspas: TER OU NÃO TER NAMORADO

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. 
Namorado é a mais difícil das conquistas. 
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. 
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. 
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. 
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. 
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. 
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar. 
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário. 
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto. 
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. 
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. 
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. 
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. 
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. 
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. 
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. 
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. 
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. 
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.


Autor: Artur da Távola. 

Oi galera esse texto foi recitado pelo meu querido professor de história Rodrigo França. Feliz dia dos namorados para vocês. 
3 de fevereiro de 2014

Segunda-feira


Um dia comum, início de semana. Tudo começa novamente, mas não há recomeço. Ela sente novamente o peso de existir, o peso de ter defeitos, o peso de não ser o que os outros querem que ela seja, sente a tonelada em suas costas por não ser quem realmente quer ser ou por não saber o que realmente é. Ela largaria tudo, doaria todo seu sangue para conseguir agradar as pessoas, mesmo que ela não agradasse a si mesma. Mas não correspondendo as expectativas dos outros ela não supera seus medos pois tudo que ela gostaria de ser era agradável e começar uma segunda-feira de recomeços.
Ela nem se quer consegue pedir ajuda, para ela pedir ajuda seria admitir com mais força que ela nunca poderá se encaixar ou ser o que os outros esperam dela. Sua insensibilidade é uma forma de escudo para proteger se do mundo. Mas a verdade é que ela é sensível, muito sensível. Chora escondido e treina chorar cada vez menos na frente das pessoas. Ela tem que parecer conformada com sua condição, tem que parecer feliz para que não sintam pena dela. Ela odeia que sintam pena dela. Ela está cansada de ter atenção apenas de pessoas que sintam pena dela. Ela quer ser boa o bastante para construir relacionamentos por ser uma pessoa interessante não para servir de título para aqueles que acreditam que "ajudá-la" é um ato de caridade que tornará o ajudante uma pessoa melhor no mundo.
A garota está cansada de ser a lata de lixo dos outros. Está cansada de ser o depósito de lixo ou o próprio lixo. Está cansada de ter uma amiga que só lembra dela quando briga com o namorado. Está cansada do impossível. Nessa segunda-feira ela só quer se compreendida. Ela só quer que vejam o lado dela, que enxerguem o que fazem dela. Ela sabe que não é a melhor garota mas sua arrogância e sarcasmo não é por falta de educação mas para parecer um pouco mais impenetrável para acharem que ela não está sendo atingida pelas palavras duras, pelos insultos perfurantes. Ela quer pensar que não acredita naquelas meias verdades.
Mas ela sabe que é um monstro, uma inútil sem propósito nenhum de existir. Segunda-feira deveria ser recomeço mas é apenas um dia que mais uma vez ela erra e se sente mal depois de uma briga e da pior briga, a briga consigo mesma. É só mais um dia cheio de cicatrizes e feridas abertas. É apenas o primeiro dia da semana que ela se sente perdida, afinal domingo é dia de se entorpecer para esquecer que existe.  
1 de fevereiro de 2014

Sem barreiras


Ele pintava aquele rosto com a maior das delicadezas. Fitava o papel como se houvesse algo além daqueles traços perfeitos. Suspirou, um suspiro profundo, logo faltou lhe o ar que foi recoberto por uma única lágrima que rodopiou em sua face branca. Aqueles traços perfeitos, como queria que eles estivessem presentes agora, tomou uma xícara nas mãos e levou a até a boca, deixou apenas que tocasse seus lábios não se permitiu tomar nem sequer um gole daquele liquido preto que lembrava apenas o calor que ela um dia transmitira a ele. Tudo fazia o lembrar se dela, a seda das suas camisas finas lembram o toque daquelas mãos delicadas que um dia ele aqueceu, a lua lembrava lhe o brilho daquele olhar singelo que por tantas vezes fitou o com amor, as rosas lembram o cheiro daquela pele macia que por tantas vezes o aqueceu, as margaridas lembravam agora mais do que nunca a palidez que ele vira na véspera.
Sua pequena, a eterna pequena dele havia partido e deixou nele lembranças, a maioria boas, então lembrou se de como seria legal se eles tivessem filhos, se culpou por ser estéril. Mas Deus sabe o que faz, com tanto amor que ele a amara seria um castigo ver os mesmos genes daquela ternura vivos e pior com a mesma dor que ele sentia, a dor da perda. Seria ainda mais doloroso se ele visse sua filha ou filho com um olhar triste, então lembrou se do olhar triste dela quando o médico deu a sentença da esterilidade. Aquele olhar triste que consolou o muitas vezes, apesar de ser o mais abalado, lembrou se de como ela queria ser mãe. Para vê - la feliz ele seria capaz de qualquer coisa. Mas agora já não era mais possível, ela partira para sempre. Ela partira, mas ali continuara sua essência, a essência que ela sempre transmitira, a de um amor simplesmente sem barreira. Um amor que excede os limites da vida. Tentou lembrar - se apenas dos momentos felizes que tiveram e ficou contente por terem sido maioria. O que aconteceria com ele, ele não sabia mas jurou a si mesmo que nunca deixaria que ela morresse dentro de si. Viveria como ela gostaria que ele vivesse, mesmo que isso doesse muito. Em memória do amor de sua vida, amaria sem barreiras e faria tudo para ajudar as pessoas com toda a bondade que era dela. Faria de sua amada seu espelho, tentaria ser feliz e fazer as pessoas felizes através de sua arte. A arte sem barreira através de um amor sem limites. 
26 de janeiro de 2014

Tapa-buracos


Viemos de fábrica zerados, sem nenhum defeito aparente. Mas ao crescermos somos moldados pela educação de nossos pais e pela própria natureza humana. Decidimos o que faremos com nossa vida e às vezes o que fazer com a vida alheia. Somos humanos, cheios de erros e defeitos. Humanos cheios de consequência. Humanos que aprendem a andar sozinhos, a pensar sozinhos - quando a alienação permite -, humanos que aprendem a usar a pior das drogas, apaixonar-se. Droga que abre crateras em nós e forma grandes erosões e que faz de nós cavadores de vida alheia ou da nossa própria. 
Humanos cheios de orgulho e preconceito. "Este não é bom o bastante para mim". "Este é pobre consequentemente um alienado". Rotulamos as pessoas para que elas façam sentido em alguma parte do mundo. Ou para apenas tirar de nós o peso da dúvida de existir. Afinal, todos devem fazer sentido - discordo! Mas sinceramente as pessoas não fazem sentido algum e apenas o que elas são capazes de sentir faz menos sentido ainda que as próprias. O tal do sentir. O tal desconhecido sentimento que aproxima quem está longe mesmo que doa. Uma dor abstrata que é tão real como um infarto do miocárdio ou um traumatismo craniano.
Nós, realmente "nós" não faz sentido. A gente também não ! Junto ou separado, a gente não faz sentido de existir. Se um de "nós" não teve motivos para amar - talvez não aparente - apenas deixou - se levar pelo embalo de um sentimento sem sentido então faz sentido. Ou o sentido de ter se apaixonado foi apenas um tapa buracos para uma vida solitária ou outra lotada de desilusões e decepções. 
Ninguém, absolutamente ninguém quer fazer sentido sendo o tapa-buraco de uma alma triste. Brincar de fazer sentido não faz sentido porque absolutamente não faz sentido ter sentido para tudo. Observo o cansaço dos que buscam um sentido para sentir, desde que o sentido não seja procurar algo que tampe suas dores em outra pessoa. Não há sentido em sentir "a gente" apenas sente. 
Pessoas não são remédio, não são álcool, não são droga - claro que há exceções das que conseguem ser tudo isso juntas. Pessoas não são tapa buracos, é um pena que outras pessoas não saibam desta útil informação. Pessoas sentem e não gostam de se sentir apenas o ópio de outras, a cura temporária. O remédio enquanto a verdadeira cura não vem. Enquanto nada melhor acontece amar é prosa e poesia. 
Sentir tem seus custos. Brincar de se apaixonar é crime. Forçar se a gostar de alguém para esquecer de sentir as antigas dores é o útil e imundo trabalho do tapa buracos. Que vá para o inferno quem ouse usar outros para tapar sua feridas. Ou que seja perdoado e atire a primeira pedra quem nunca o fez. Tapar não cura, talvez apenas pare de latejar a dor. 
E que problema há em ser tapa buracos de alguém ? Desde que você não saiba não há problema algum. Mas se souber... Sinto muito mas vai doer. Doer muito. Afinal ninguém quer ser apenas um curativo. Merecemos ser a cura, desde que seja reciproco. Reciprocamente possível, para que não doa a saudade. Pois saudade mal curada se enterra com porres, com falsos amores, com aventuras perigosas, com ópio - o ópio de outros tapa-buracos, com adrenalina, com tudo que distancie o pensamento do sentimento. Tudo que faça por segundos esquecer o sentir. 
14 de dezembro de 2013

A menina dos olhos cansados


Andava com tanta tralha que ninguém se oferecia para ajudar a carregar por medo de não conseguir. A menina dos olhos castanhos tinha por volta de seus 17 anos. Tão despreocupada, sem neurose por beleza não se importava em manter os cabelos penteados. Tão tímida essa garota me intrigava diariamente. Eu nunca fui do tipo de garoto que repara em meninas tímidas. Aliás as tímidas nunca fizeram meu tipo mas havia algo que me chamava atenção na garota dos olhos cansados. Passei a repará – la todos os dias no intervalo. Ela sempre estava sozinha mas isso não significava que ela não tinha amigos. A garota sentava – se todos os dias em um banco pintado de azul no patio arregaçava as mangas do agasalho e ficava encarando o nada com fones de ouvido e as vezes um livro ou um caderno nas mãos. O sol em seu rosto todas as manhãs parecia essencial para aquela garota. Ah, quando chovia ela sentava – se na arquibancada da quadra poliesportiva e continuava fitando o nada que agora era chuva. Se algum de seus colegas chegasse e sentasse junto a ela no banco ela dava uma atenção que me intrigava mais ainda. Mostrava total interesse no assunto e quando a companhia ia embora ela voltava a fitar o vento. Eu também nunca fui do tipo de garoto que tem um lugar para ficar, sempre estava por aí andando e conversando com pessoas menos interessantes que a garota do banco azul. Eu nunca deixei de repará – la desde o dia que percebi que ela sempre estava ali, ao menos por um minuto eu teria que passar perto e repará – la, mas nunca deixei que nenhum dos meus amigos percebesse que eu olhava para ela todos os dias. Os meses se passavam e ver aquela garota era essencial para mim. Não sei que doença foi essa que meu cérebro desenvolveu que se eu não a visse passava o dia desanimado. Acho que já estava ficando louco ou neurótico. Que estupidez a minha, eu nunca fui um cara tímido podia muito bem chegar nela dizer um “oi” e perguntar seu nome. Geralmente não era necessário perguntar o nome das pessoas no meu colégio pois as camisetas tinham o nome bordado. O que me intrigava mais ainda, fazendo frio ou calor a garota sempre estava de agasalho.
Passaram – se seis meses e a garota continuava ali com sua mesmice. Eu sempre notava algo diferente quando havia, como aquela corrente que ela apareceu usando em uma segunda-feira. Outro dia notei que ela estava usando óculos, achei que ela ficou bonita usando óculos. Mas foi só por alguns dias porque depois acho que ela começou a usar lente de contato pois nunca mais a vi usando óculos. Em uma quarta – feira esqueci de disfarçar e me perdi nos olhos cor de mel da garota. De repente a garota sem nome encontrou meu olhar no dela e sua reação foi perturbadora. Ela levantou – se rapidamente e vi suas bochechas enrubescerem em um rosado tão angelical que me fez sonhar à noite. Sonho perturbador, por que eu não conseguia parar de reparar aquela garota? Por que eu não tinha coragem de dizer um “oi”? Eu nunca fui um cara tímido. Depois desse episódio não vi a garota por quase um mês. Senti uma preocupação arrasadora por àquela desconhecida. Resolvi contar tudo a minha melhor amiga que era meio metida a psicologa, uma maluca completa na verdade. Minha amiga disse que eu sofria de amor platônico. No começo eu não quis aceitar mas depois de algumas pesquisas pela internet aceitei o que eu sentia por ela. Uma loucura, geralmente são garotas que se apaixonam platonicamente.
Em uma tarde de sexta – feira, dia de aula no auditório deitei – me no chão próximo à porta e fiquei pensando em formas de atrair a garota até mim. Quando virei para ver o movimento no pátio dei com o olhar na garota que estava sentada de frente para mim. Levei um susto e percebi um meio sorriso naquele rosto de olhar cansado. A cada dia cada vez mais linda e seu olhar cada vez mais cansado e distante.
Resolvi colocar minha melhor amiga em ação. Pedi a ela para procurar a garota e tentar aproximar – se dela. No começo ela não aceitou a ideia mas depois lembrei – a que ela só tinha passado em matemática porque a ajudei. Foi tão inútil a ajuda da minha amiga. A garota dos olhos cansados tão indecifrável ignorou minha melhor amiga totalmente todas as vezes que ela tentou se aproximar. Eu estava cada vez mais triste por não conseguir me aproximar da garota e tentava tapar o sol com a peneira beijando todas as moças que quisessem um beijo meu. Estupidez a minha, não dava para trocar sorvete por jiló. Que comparação idiota, uma moça tão perturbadora e intrigante com toda certeza era melhor que minha sobremesa favorita.
Em uma terça-feira de inverno chequei meu e-mail para ver se havia algo novo sobre o jogo que eu jogava. Havia um e-mail anônimo, achei estranho por não estar no lixo eletrônico pois geralmente e-mail anônimos são spans. Lá estava a coisa mais inesperada da minha vida. Um e-mail da garota dos olhos cansados.

Não que eu não ache você interessante, mas é só que eu não estou interessada em conhecer você. Não quero que saiba meu nome nem mande sua amiga bisbilhotar minha vida. Eu sei que você me vigia e procura a cada intervalo uma chance de falar comigo. Não sei qual o seu problema, pois há tantas garotas interessantes e você perdendo seu tempo percebendo uma garota como eu. Não pense que foi sua melhor amiga que mandou esse e-mail para você parar de ficar com essa neurose e nem queira saber como eu descobri seu e-mail. Só digo que foi muito difícil. Talvez nunca mais você me veja, pois mudarei de cidade esse fim de semana. Um até logo! De A...

Droga ! Como ela pode fazer isso comigo ? Está tão na cara que eu reparo nela todos os dias ? Lembrei – me da voz de minha amiga “todos os dias você está com mais cara de retardado que no dia anterior reparando essa garota, todo mundo já percebeu mas ninguém tem coragem de se meter com você por causa da sua fama de ter batido naquele garoto que se meteu com meu irmão, sorte a sua porque até eu zoaria você em publico se não fosse constrangedor o bastante para você nunca mais falar comigo (risos)”

Realmente, nunca mais a vi mas aquela garota nunca saiu do meu pensamento. Aquele olhar cansado, talvez entristecido e muito indecifrável nunca saiu da minha memória. Espero um dia encontrá – la e amá – la como a amei tão desconhecidamente, como nunca amei ninguém. Um amor de alma, talvez muito mais verdadeiro do que platônico. Nunca entenderei aquele e-mail e nunca a entenderei, afinal é preciso conhecer muito mais que um olhar cansado para entender uma pessoa mas é preciso apenas ver com os olhos da alma para amá – la. Se A for a inicial do nome dela como suponho que seja, nada terá sido tão perfeito quando viver esse Amor desconhecido, sofredor mas valioso. 
2 de dezembro de 2013

Uma tarde de saudade


Saíra do apartamento andando sem rumo pelo corredor entre os prédios, fizera uma caminhada de uns 20 minutos que parecera uma vida inteira. Tentara ocupar o tempo ou distrair se com um jogo bobo no smartphone mas não conseguira, sentira um sentimento estranho que não lhe causara dor nenhuma. Sentimento que causara-lhe uma inundação de memórias.
Estivera com ele em um dos melhores dias de sua vida, fotografara em muitos lugares do condomínio, em locais que olhos comuns diriam ser horríveis e desajeitados, lembrara das poses que fizera e dos sorrisos que tirara dele naquela tarde nublada. Lembrara do olhar vivo dele e do batom que usara, aquele tom de vermelho tirara um "uau" da voz dele, lembrara do all star vermelho que usara naquela tarde, da camiseta do filme star wars e da saia cheia de estrelas como uma galáxia, sentira o perfume adocicado que usara naquela tarde.
Depois de sentir-se sentira o perfume dele e a doce melodia daquela voz que parecia cantar as mais belas notas já inventadas no universo. Lembara da roupa que ele vestira, àquela camiseta branca com estampa do disco The Wall da banda Pink Floyd que ele tanto gostava, aquela calça jeans sempre fora apenas uma calça mas naquele dia nublado era a calça mais bela que já vira. Sentira o abraço quente e desajeitado dele, sorrira. Sentiu-se confortável com o calor dele fizera um pouco de frio naquela tarde mas nada de pedisse um agasalho para cobrir sua linda camiseta.
Recordara-se de gravar uma playlist idêntica à sua no iphone dele e sair cantarolando as músicas juntos e dando gargalhadas e às vezes sorrisos envergonhados quando a letra tocava os sentimentos. Sentiu o beijo quente dele e ...
Acordou do seu sonho, tudo aquilo havia acontecido mas agora ele estava longe demais para ficarem juntos. E ela era apenas uma garota dominada pelo cansaço dormindo no banco do pátio do condomínio. Triste ?! Não, ela estava muito feliz, estava feliz por reconhecer pelo menos na hora do adeus que ele realmente amara ela, estava feliz por reconhecer que apesar de nunca achar que era boa o bastante para o seu amigo. Deu a ele o que sempre quis. Um beijo! Arrependeu-se por deixar com ele um gosto maior de saudade e escreveu um e-mail :

O vento bate em meu rosto e ando na estrada vazia lembrando me de tantas coisas, de como foi estar aqui em outros dias de sol. Desculpe se perdi algumas memórias, sou uma caixinha de imperfeição como você sempre me dizia, sou a anormal e você o normal e é por isso que juntos somos perfeitos. Quero que saiba que sempre te amei mas sempre achei que você poderia encontrar um pessoa melhor que eu. Não sei se você voltará e pensando bem podemos prosseguir sem estarmos presencialmente juntos. Espero que seja feliz com seu pai na Alemanha e com sua faculdade. Sempre seremos amigos e me perdoe por nunca compreendê-lo ou acreditar no que você dizia. O tempo e as experiências nos faram amadurecer e logo logo você se lembrará de mim apenas como sua melhor amiga e não como alguém por quem você se apaixonou. Mande notícias. Um abraço, Aline.

Aquele e-mail cheio de poesia nunca fora enviado. Levantou-se do banco sentindo saudade e ficou feliz por perceber que quem tem saudade tem amor.


(Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência, eu inventei tudinho.)  

Analogias (Parte 2)


Abalou. Tirou tudo de seu lugar. Como uma avalanche encheu-me de problemas, como enchem-se bolas de neve na junção de seus flocos. Encheu como são inundadas cidades em dias de enchente. Encheu-me, inundou-me, amou-me, ou tentou amar-me. Ou fingiu.
Súbitos tremores, como tremem os prédios e se despedaçam vítimas de um terremoto. Fui vítima, fui sua vítima e sentenciou-se um fim, o fim das minhas alegres emoções. Tomou-me e não deixou-me ir quando foi necessário. Deixou-me quando foi preciso ficar, em meio a soluços silenciosos que me deixavam trêmula e sem chão. Resguardei-me do mundo e me enchi de ti.
Não pude sentir... talvez tenha me amado tanto e tão profundamente, tão incondicionalmente, e perdida em meus erros não percebi. Nunca notei o quão alto as músicas tocavam no seu coração e eu presa no meu quarto frio não notei que o que afastava-me de ti era nada menos que eu.
Restou algo que não me abala, que deveria mas que fortalece. Os geisers de saudade que aparecem de tempo em tempo sob alguma pontada de sorriso envergonhado e que fazem-me recordar o clímax de nossa estória, àquele criado por mim. Criado em noites de nostalgia, clímax que nunca existiu. Um analogia sem fim de um cérebro cansado!


Oi galerinha, quanto tempo! Estou de volta relendo os textos guardados nos rascunhos e publicando alguns. Espero que gostem! Beijocas :*** Esse ficou bem pequeno mas como é uma serie terá a continuação. Aguardem! 
29 de julho de 2013

Entre aspas: METADE

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.



Metade, de Oswaldo Montenegro é uma música que ouvi recitada em forma de poesia por um professor de história chamado Rodrigo França. Bem acho que não tenho que acrescentar nada a essa poesia. Só deixo um recadinho seja você a sua outra metade que seu namorado ou namorada não seja metade mas o que te faz transbordar de sentimentos. Beijos, espero que volte sempre ao meu jardim! 
24 de dezembro de 2012

Especial de natal: músicas

Olá, eu sei que ninguém olha meu blog sempre e ainda menos em véspera de Natal mas separei alguns videos com tema natalino que eu gosto muito (: ou que me assustei, de qualquer forma tem para todos os estilos. Consagrei o vídeo da banda The killers o mais bizarro!




















21 de dezembro de 2012

Entre Aspas: Sem nome


Você precisa fazer alguma coisa, as pessoas dizem. Qualquer coisa, por favor, as pessoas dizem. O que não dá é pra ficar assim. Nem que seja piorar, nem que seja enlouquecer. Olho o rosto das pessoas. Tem os ossos, dai tem a parte de dentro. Tem os olhos e tem o fundo dos olhos. Da boca saem esses sons. De repente alguém encosta em mim. Pra perguntar com o quentinho da mão se estou ouvindo e entendendo. Sorrio e torço pra pessoa ir embora. Torço pra alguém chegar, só pra torcer bem pouquinho por algo. Mas dai a pessoa começa a falar e torço pra pessoa ir embora. Não tem o que fazer, não tem o que dizer, não tem o que sentir. Sou uma ferida fechada. Sou uma hemorragia estancada. Tenho medo de deixar sair uma letra ou um som e, de repente, desmoronar.

Quando toca uma música bonita, minha ironia assovia mais alto. Um assovio sem melodia. Um assovio mecânico mas cuidadoso, como tomar banho ou colocar meias. Outro dia tentei chorar. Outro dia tentei abraçar meu travesseiro. Não acontece nada. Eu não consigo sofrer porque sofrer seria menos do que isso que sinto. Tentei falar. Convidei uma amiga pra jantar e tentei falar. Fiquei rouca, enjoada, até que a voz foi embora. Tentei aceitar o abraço da minha amiga, mas minha mão não conseguiu tocar nas costas dela. Não consigo ficar triste porque ficar triste é menos do que eu estou. Não consigo aceitar nenhum tipo de amor porque nenhum tipo de amor me parece do tamanho do buraco que eu me tornei. Se alguém me abraçar ou me der as mãos, vai cair solitário do outro lado de mim.

Se eu pudesse usar uma metáfora, diria que abriram a janela do meu peito e tudo de bom saiu voando. Eu carrego só uma jaula suja e escura agora. Se eu pudesse usar uma metáfora, eu diria que tiraram as rodinhas dos meus pés. Eu deslizava pelo mundo. Era macio existir. Agora eu piso seco no chão, como um robô que invadiu um planeta que já foi habitado por humanos. Mas eu não posso usar metáforas porque seria drama, seria dor, seria amor, seria poesia, seria uma tentativa de fazer algo. E tudo isso seria menos.

Não briguei mais por você, porque ter você seria muito menos do que ter você. Não te liguei mais, porque ouvir sua voz nunca mais será como ouvir a sua voz. Não te escrevo porque nada mais tem o tamanho do que eu quero dizer. Nenhum sentimento chega perto do sentimento. Nenhum ódio ou saudade ou desespero é do tamanho do que eu sinto e que não tem nome. Não sei o nome porque isso que eu sinto agora chegou antes de eu saber o que é. Acabou antes do verbo. Ficou tudo no passado antes de ser qualquer coisa. Forço um pouco e penso que o nome é morte. Me sinto morta. Sinto o mundo morto. Mas se forço um pouco mais, tentando escrever o mais verdadeiramente possível, percebo que mesmo morte é muito pouco. Eu sem nome você. Eu sem nome nós. Eu sem nome o tempo todo. Eu sem nome profundamente. Eu sem nome pra sempre.

Autora: Tati Bernardi, escritora, roteirista, contista, cronista, tem um jeito próprio de se expressar já trabalhou para as melhores revistas e jornais do Brasil e atualmente é contratada pela Globo. Quem nunca ouviu falar nesse nome? Talvez você nunca ouviu o nome desse gênio mas com total certeza afirmo que já leu algo escrito por ela no perfil de alguma rede social daquela pessoa memorável que conhece os escritos da Tati. Escreve com um jeito próprio e revoltado de uma adolescente mas sabe ser forte e madura quando necessário Tati Bernardi é simplesmente uma das minhas cronistas favoritas.