3 de julho de 2014

Apenas metáforas


Eu não sabia que era capaz de perdoá-lo. Depois de tudo que ele fez, a farsa, as mentiras e mesmo sem ter admitido o próprio erro ou ter me pedido desculpas eu desculpei-o. O que sinto agora é uma imensa vontade de descobri-lo. Eu poderia simplesmente ir até ele e pedir uma explicação que eu sei que ele nunca dará. Mas não posso, não é orgulho é só proteção. Ele nunca foi sincero comigo ou pelo menos em grande parte não foi. Não é certo eu correr atrás de um mentiroso que pode destruir ainda mais meus sentimentos. Meu desejo é que ele viesse até mim pedindo perdão e dizendo que sente muito e que sente algo por mim. Eu duvidaria, mesmo que uma dúvida fingida mas sentiria uma... Não sei o que sentiria, nunca fui a pessoa que sente mas sou a pessoa que imagina. Por mais dolorosa que foi essa experiência de ser enganada parte de mim ficava feliz por ele sempre ter estado tão perto, mesmo que eu não saiba quem ele é de verdade. Resta-me agora apenas escrever o que tanto preciso esconder. Mais uma vez ocuparei os esconderijos do meu coração. Aqueles que por tanto tempo deixei de portas fechadas e tornei-me mais transparente inutilizando-os. Agora tais caverninhas do meu ser voltam a estar ocupadas. Na caverna maior habita uma vaca muito sábia, intocável e sagrada, uma flor que nunca murcha e que nasceu entre pedrinhas e espinhos. A flor abriga uma fada de asas douradas que está morrendo. A fada chama-se Esperança. A flor é seu abrigo mas suas pétalas a sufocam por mais macias que sejam. A flor imortal floresce, ela deseja incessantemente ser arrancada dali. Ela quer sair daquela caverna e florescer em meio à luz do sol e ao brilho do luar. A vaca a vigia e não deixa que nenhuma criaturinha da noite a colha e leve-a para fora da caverna. A esperança padece e o vento frio adentra a caverna gelando meu peito. Mas são apenas analogias que faço para desgrenhar os fios das meadas em meados do meu ser. Apenas analogias.

Vocabulário metafórico: vaca=razão, fada=esperança, flor=sentimentos e emoções.
1 de julho de 2014

Calma sem carma



Sinto carma, me sinto um carma, meu próprio carma sou eu, é tão difícil conviver comigo mesma e depois deixar tudo para trás agir como se eu não sentisse nada, como se eu não fosse nada (não sou nada mesmo). É pior conviver com seu carma quando ele já se tornou você, ou ainda pior, grande o bastante e capaz de se fundir ao seu próprio ser. Todos nós temos um carma mas a maioria das pessoas consegue pelo menos dormir sem ele ou não pensar nele. Talvez uns dirão que pareço atriz, que sou a rainha do drama e etc… Não queria que ninguém visse o que eu escrevo sem pensar mas que fique claro: ninguém é forte o tempo todo, e uma hora tudo escapa, você escapa de si se descontrola, joga toda a reputação que criou para o ar como se esta nunca houvesse existido. Deixo rastros o tempo todo sobre o que realmente sou, mas parece que é tão fácil encobri-los que quando realmente percebem como eu sou e me sinto me desespero. Não recupero tão rapidamente a essência das alegrias constantes.  Sinto falta, faz me falta ser somente eu sem me culpar por ser eu. Conformar me com a minha essência de ser ou muda la. Sem carma, com calma, depois dos desabafos e das lágrimas o jeito é prosseguir, esquecer como me sinto quando estou sozinha e quando penso demais. O jeito é seguir em frente dando trancos e passando por barrancos e vez ou outra construindo uma ponte de amizade que me faça conseguir chegar ao outro lado do rio. Porque a vida é isso mesmo, um dia a gente sente no outro a gente só é feliz. Feliz por inteiro,sem carma. Calma ! 





30 de junho de 2014

Fora do roteiro


Há dias em que o céu dela está nublado em uma tarde ensolarada, há dias em que chove dentro de seu apartamento. Há dias que ela acorda sem vontade alguma de sair da cama. Em desaprovação ao mundo ela levanta-se. Ela tem que superar, tem que vencer uma batalha por dia. Tem que ser feliz, ser feliz é condicional para uma vida saudável. Ela tem que ser alegre, ou menos que alegre. Tem que ser racional. Ela sempre foi racional, racionalidade nunca lhe faltou. Mas a mesma racionalidade que a salva todos os dias também a condena. Ela não aprendeu a acreditar, duvidar talvez não faça parte da racionalidade de certo mas para ela duvidar fazia parte do exercício de vida. Agora sabendo que duvidar de tudo é quase desesperador ela tenta acreditar em alguma coisa. Ela sempre acreditou em tudo, menos em si mesma. Este é o pior dos exercícios. Acreditar em si mesma não fazia parte do plano, mas às vezes o que não está no roteiro é o mais necessário. Não há mais aquele alguém que se encaixa à aquela música que ela gravou. Não tem mais ninguém que ria de uma coisa boba que ela disse. Não existe mais alguém em quem ela confie para dizer os seus problemas. Não estava dentro do roteiro estar sozinha. Não estava dentro do roteiro ter um roteiro. Ela se viu mais forte como nunca, tão forte como nunca sonhou ser. Mas ela é uma garota forte e ninguém além dela pode provar o contrário. Ela descobriu de uma forma não muito agradável que as pessoas vivem por tapar o buraco das covas que cavam para a própria alma, mas tardam em cair em suas sepulturas. Tapam a infelicidade com falsos sorrisos. Poderia citar milhões de tapa buracos mas tornaria este texto um pouco mais tedioso e clichê. Falo das pessoas que são o próprio tapa buracos de outras. Não faz sentido mas algumas pessoas se apaixonam por outras para esquecer a última tragédia amorosa que a própria paixão trouxe. Sinceramente isso não faz sentido. Nenhum. Ela foi vítima de alguém que escolheu não se entregar, que escolheu tapar um buraco enquanto deveria ter curado suas feridas e só então dar lugar a um novo amor. Relacionar se não pede um roteiro, aliás um roteiro atrapalha tudo. Ela agora aprendeu a viver sem roteiro, porque ser inteiro é isso. É ser uma peça de teatro improvisada a cada dia.     
28 de junho de 2014

Pessimismo


Querida celulose,

Há gritos mudos em mim, há algo que não consigo expressar. Ah, sobre expressar o que sinto sei muito bem explicar. Sou metida a me descrever mas pouco sei sobre mim. Converso com as paredes, mando cartas para um destinatário inexistente. Há muito aprendi a reprimir o que sinto e esconder o que penso. E é assim que eu me expresso: não externando nada.

Querida celulose, senti tanto a sua falta, há tanto tempo não confio em você para contar os meus segredos. Perdoe-me a falta de tempo. Quero contar - lhe que não choro mais, não amo mais, sinto - me como se eu fosse o que tu foste outrora, um vegetal. Grande arbórea sem voz.

As lágrimas aparecem vez ou outra mas não as deixo cair. Talvez uma atrevida se disperse pelo meu rosto. Se alguém viu  contei que era uma lágrima de rinite alérgica. Infalível, acreditam e deixam-me em paz. Lágrima tão inconsequente vem trair minha face pelo olho direito, àquele que o cabelo não cobre.

Você percebeu o quanto eu mudei ? Estou sendo empacotada pelas normas, até para falar contigo eu separo o texto em parágrafos. Mas a bagunça em minha mente ainda permanece. Quanto às dúvidas coloquei-as na minha caixa do nada, do vazio, do inexistente. Dúvidas ? Ainda existem mas agora somente as escolares, principalmente de geometria analítica.

Descobri que esse é o preço que se paga para tentar refazer, reconstruir e viver um sonho antigo. Medicina da solidão. Da quebra de expectativas, da impotência, da incapacidade, da lágrima que não sai, do câncer social. Ao menos abandonei a vida virtual que tinha por uma mais produtiva.

Linhas desta folha digo-lhes que talvez darei a qualquer um esse papel com todo o sentimento e com sentimento nenhum. Se a covardia me permitir dizer adeus poderão chamar-me de louca. Mas em prosa de poeta há mesmo certa loucura.

Despedida: como amor do Grafite menos energético, mais abundante e de cor e valor simples. Desejo a você todo o carbono do mundo. Seja feliz papel, no lixão que te espera, sou grata aos 10 litros de água que se perderam ao produzir-te.

Com enrolação, adeus!


Que fique claro a vocês caros leitores que este texto foi escrito em um momento de pessimismo. Isso não significa que eu seja assim. E o mais importante, é um mero texto artístico. A foto acima é o papel original que por sinal não foi descartado. Esse texto foi escrito em 2013. 
26 de junho de 2014

Flor de utopias

Tudo finda - se em utopia
até os amores, os laços, os abraços
Torna-se flor que cultivo no meu mar de nostalgia
Essa relutante utopia que transforma ser em poesia

Sou poente, sou sol
Es (tu) minha energia
Sou o mar e o amar
A ternura e a lucidez

Sou (teu) sonho
E a beleza em escassez
Óh distância
Quanto há em mim que seja relutância ?

Não quero utopias, quero realidade
Ser eu em verdade
Sorrir porque o céu é azul
Sentir o frio no inverno

Que não haja inverno em mim
Que haja utopia onde realidade não houver
Porque utopia é realidade no pensamento
E sonhar é a grandeza e a beleza do momento
23 de junho de 2014

O construtor de utopias



Um engenheiro do próprio destino fez de sua existência a própria poesia ambulante. Com todo o saber da matemática, calculou minuciosamente os segundos para dizer palavras doces para a boca e medicina para a alma. Com a física aprendeu que toda ação possui uma reação. Amou para ser amado e foi amado e amou. Para ele a inercia é arrebatadora. É como o silêncio se não houver palavras ou ações. Tudo permanece como está e não adianta reclamar se nada aconteceu pois cada essência de cada ser humano é a força motriz da mesma existência. Tudo é imutável onde a essência de cada ser padece desesperançosa. O desenho é fundamental para que uma construção seja feita. Desenhar a vida é muito mais do que simplesmente construir uma história, é seguir os moldes do saber, do pensar, do agir, do falar, do sentir... Moldes criados por si e para si. Moldar a vida é um ato de flexibilidade, mais flexível que a engenharia porém mais complexo. O engenheiro segue corretamente as regras para que sua construção seja concluída com sucesso. Superar as leis da física um engenheiro qualquer não seria capaz. Entretanto, um construtor de poesias supera tudo, tudo que vá além do seu eu poético. Plantou - se um jardim em um prédio. Ah , quem diria! Um jardim vertical! A beleza de poesia expressa em uma parede fria. A coisa mais linda que já vira. Flores exalando seu aroma, perfumando a cidade e o coração do engenheiro de cálculos infinitos. Um construtor qualquer deseja que sua construção seja imensamente valiosa e reconhecida. O construtor de utopias quer ser jardineiro e cultivar um jardim em cada esquina. Ele quer que o perfume das flores alegre cada essência humana por onde ele passar. Vasculhei nos becos escuros e também onde havia mais claridade na imensidão do universo. Porém só encontrei nas utopias infinitas essências de uma fantasia especial construída com amor, algo surreal e surpreendente. Achei nos becos relatos do coração a mais bela construção. O mais caprichoso construtor de utopias surreais, enfim quis seguir para os fins da eternidade. Utopia, infindável poesia, profunda melodia onde não há som, ondas mecânicas que quebram as paredes do coração. Não importa se há de ser inalcançável os sonhos que se tem. Construir utopias é ser engenheiro da própria vida, sonhar é preciso para que não se deixe padecer a essência que se tem, a essência da vida. Poetizando os becos escuros por onde há de se passar.     
10 de junho de 2014

Entre Aspas: TER OU NÃO TER NAMORADO

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. 
Namorado é a mais difícil das conquistas. 
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. 
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. 
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. 
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. 
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. 
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar. 
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário. 
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto. 
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. 
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. 
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. 
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. 
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. 
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. 
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. 
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. 
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. 
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.


Autor: Artur da Távola. 

Oi galera esse texto foi recitado pelo meu querido professor de história Rodrigo França. Feliz dia dos namorados para vocês. 
3 de fevereiro de 2014

Segunda-feira


Um dia comum, início de semana. Tudo começa novamente, mas não há recomeço. Ela sente novamente o peso de existir, o peso de ter defeitos, o peso de não ser o que os outros querem que ela seja, sente a tonelada em suas costas por não ser quem realmente quer ser ou por não saber o que realmente é. Ela largaria tudo, doaria todo seu sangue para conseguir agradar as pessoas, mesmo que ela não agradasse a si mesma. Mas não correspondendo as expectativas dos outros ela não supera seus medos pois tudo que ela gostaria de ser era agradável e começar uma segunda-feira de recomeços.
Ela nem se quer consegue pedir ajuda, para ela pedir ajuda seria admitir com mais força que ela nunca poderá se encaixar ou ser o que os outros esperam dela. Sua insensibilidade é uma forma de escudo para proteger se do mundo. Mas a verdade é que ela é sensível, muito sensível. Chora escondido e treina chorar cada vez menos na frente das pessoas. Ela tem que parecer conformada com sua condição, tem que parecer feliz para que não sintam pena dela. Ela odeia que sintam pena dela. Ela está cansada de ter atenção apenas de pessoas que sintam pena dela. Ela quer ser boa o bastante para construir relacionamentos por ser uma pessoa interessante não para servir de título para aqueles que acreditam que "ajudá-la" é um ato de caridade que tornará o ajudante uma pessoa melhor no mundo.
A garota está cansada de ser a lata de lixo dos outros. Está cansada de ser o depósito de lixo ou o próprio lixo. Está cansada de ter uma amiga que só lembra dela quando briga com o namorado. Está cansada do impossível. Nessa segunda-feira ela só quer se compreendida. Ela só quer que vejam o lado dela, que enxerguem o que fazem dela. Ela sabe que não é a melhor garota mas sua arrogância e sarcasmo não é por falta de educação mas para parecer um pouco mais impenetrável para acharem que ela não está sendo atingida pelas palavras duras, pelos insultos perfurantes. Ela quer pensar que não acredita naquelas meias verdades.
Mas ela sabe que é um monstro, uma inútil sem propósito nenhum de existir. Segunda-feira deveria ser recomeço mas é apenas um dia que mais uma vez ela erra e se sente mal depois de uma briga e da pior briga, a briga consigo mesma. É só mais um dia cheio de cicatrizes e feridas abertas. É apenas o primeiro dia da semana que ela se sente perdida, afinal domingo é dia de se entorpecer para esquecer que existe.  
1 de fevereiro de 2014

Sem barreiras


Ele pintava aquele rosto com a maior das delicadezas. Fitava o papel como se houvesse algo além daqueles traços perfeitos. Suspirou, um suspiro profundo, logo faltou lhe o ar que foi recoberto por uma única lágrima que rodopiou em sua face branca. Aqueles traços perfeitos, como queria que eles estivessem presentes agora, tomou uma xícara nas mãos e levou a até a boca, deixou apenas que tocasse seus lábios não se permitiu tomar nem sequer um gole daquele liquido preto que lembrava apenas o calor que ela um dia transmitira a ele. Tudo fazia o lembrar se dela, a seda das suas camisas finas lembram o toque daquelas mãos delicadas que um dia ele aqueceu, a lua lembrava lhe o brilho daquele olhar singelo que por tantas vezes fitou o com amor, as rosas lembram o cheiro daquela pele macia que por tantas vezes o aqueceu, as margaridas lembravam agora mais do que nunca a palidez que ele vira na véspera.
Sua pequena, a eterna pequena dele havia partido e deixou nele lembranças, a maioria boas, então lembrou se de como seria legal se eles tivessem filhos, se culpou por ser estéril. Mas Deus sabe o que faz, com tanto amor que ele a amara seria um castigo ver os mesmos genes daquela ternura vivos e pior com a mesma dor que ele sentia, a dor da perda. Seria ainda mais doloroso se ele visse sua filha ou filho com um olhar triste, então lembrou se do olhar triste dela quando o médico deu a sentença da esterilidade. Aquele olhar triste que consolou o muitas vezes, apesar de ser o mais abalado, lembrou se de como ela queria ser mãe. Para vê - la feliz ele seria capaz de qualquer coisa. Mas agora já não era mais possível, ela partira para sempre. Ela partira, mas ali continuara sua essência, a essência que ela sempre transmitira, a de um amor simplesmente sem barreira. Um amor que excede os limites da vida. Tentou lembrar - se apenas dos momentos felizes que tiveram e ficou contente por terem sido maioria. O que aconteceria com ele, ele não sabia mas jurou a si mesmo que nunca deixaria que ela morresse dentro de si. Viveria como ela gostaria que ele vivesse, mesmo que isso doesse muito. Em memória do amor de sua vida, amaria sem barreiras e faria tudo para ajudar as pessoas com toda a bondade que era dela. Faria de sua amada seu espelho, tentaria ser feliz e fazer as pessoas felizes através de sua arte. A arte sem barreira através de um amor sem limites. 
26 de janeiro de 2014

Tapa-buracos


Viemos de fábrica zerados, sem nenhum defeito aparente. Mas ao crescermos somos moldados pela educação de nossos pais e pela própria natureza humana. Decidimos o que faremos com nossa vida e às vezes o que fazer com a vida alheia. Somos humanos, cheios de erros e defeitos. Humanos cheios de consequência. Humanos que aprendem a andar sozinhos, a pensar sozinhos - quando a alienação permite -, humanos que aprendem a usar a pior das drogas, apaixonar-se. Droga que abre crateras em nós e forma grandes erosões e que faz de nós cavadores de vida alheia ou da nossa própria. 
Humanos cheios de orgulho e preconceito. "Este não é bom o bastante para mim". "Este é pobre consequentemente um alienado". Rotulamos as pessoas para que elas façam sentido em alguma parte do mundo. Ou para apenas tirar de nós o peso da dúvida de existir. Afinal, todos devem fazer sentido - discordo! Mas sinceramente as pessoas não fazem sentido algum e apenas o que elas são capazes de sentir faz menos sentido ainda que as próprias. O tal do sentir. O tal desconhecido sentimento que aproxima quem está longe mesmo que doa. Uma dor abstrata que é tão real como um infarto do miocárdio ou um traumatismo craniano.
Nós, realmente "nós" não faz sentido. A gente também não ! Junto ou separado, a gente não faz sentido de existir. Se um de "nós" não teve motivos para amar - talvez não aparente - apenas deixou - se levar pelo embalo de um sentimento sem sentido então faz sentido. Ou o sentido de ter se apaixonado foi apenas um tapa buracos para uma vida solitária ou outra lotada de desilusões e decepções. 
Ninguém, absolutamente ninguém quer fazer sentido sendo o tapa-buraco de uma alma triste. Brincar de fazer sentido não faz sentido porque absolutamente não faz sentido ter sentido para tudo. Observo o cansaço dos que buscam um sentido para sentir, desde que o sentido não seja procurar algo que tampe suas dores em outra pessoa. Não há sentido em sentir "a gente" apenas sente. 
Pessoas não são remédio, não são álcool, não são droga - claro que há exceções das que conseguem ser tudo isso juntas. Pessoas não são tapa buracos, é um pena que outras pessoas não saibam desta útil informação. Pessoas sentem e não gostam de se sentir apenas o ópio de outras, a cura temporária. O remédio enquanto a verdadeira cura não vem. Enquanto nada melhor acontece amar é prosa e poesia. 
Sentir tem seus custos. Brincar de se apaixonar é crime. Forçar se a gostar de alguém para esquecer de sentir as antigas dores é o útil e imundo trabalho do tapa buracos. Que vá para o inferno quem ouse usar outros para tapar sua feridas. Ou que seja perdoado e atire a primeira pedra quem nunca o fez. Tapar não cura, talvez apenas pare de latejar a dor. 
E que problema há em ser tapa buracos de alguém ? Desde que você não saiba não há problema algum. Mas se souber... Sinto muito mas vai doer. Doer muito. Afinal ninguém quer ser apenas um curativo. Merecemos ser a cura, desde que seja reciproco. Reciprocamente possível, para que não doa a saudade. Pois saudade mal curada se enterra com porres, com falsos amores, com aventuras perigosas, com ópio - o ópio de outros tapa-buracos, com adrenalina, com tudo que distancie o pensamento do sentimento. Tudo que faça por segundos esquecer o sentir.