19 de janeiro de 2016

O Perfume


Depois de ter lhe declarado minha paixão perguntou me: —Como é que se sente quando me aproximo? —Aos 14 anos escalei pela primeira vez com meu pai a Serra da Canastra. Quando chegamos ao topo senti meu corpo envolvido pelos braços do ar. Um doce cheiro habitava meu íntimo. Aquele vento era meu alento, batia me no rosto e ardia, não só a pele, mas a emoção por dentro. O gélido ar incendiava meu coração. O frio arrepiava meus pelos e meu nariz doía com as chicoteadas dos cabelos em minha face. Me dava prazer aquela dor de cansaço. Sentia me mais perto de Deus, envolvida pelo abraço dos anjos perfumados. —É assim que se sente quando me aproximo? —Sim, é como se trouxesse todas as sensações do mundo com teu cheiro.

7 de dezembro de 2015

Lembrança



Acordou num dia como qualquer outro o moço do sorriso lindo e dos lábios carnudos. 

- Gostosa! - gritou, me ressentia com como ele falava comigo, sempre me deixando sem graça. 
Ah, o amor é dessas coisas bestas que a gente não entende. Dia vai e dia vem e os olhos deles, dos meus dois melhores amigos, se cruzaram. Amor na certa. Todo dia vai e vem e a baixinha e o grandão sorriam como duas crianças ao ouvir uma piada. Aquele amor cruzado não concretizado me dava pena. Por que será que a pequena não tinha pulso para agarrá lo com a vontade e força de nunca mais soltar? 

Lembro bem de quando ele gritava meu nome, eu morria de vergonha. Os seus abraços apertados e o fato de minha amiga de infância ser apaixonada por ele não me impediu de amá lo. Mas não o amei como ela, é só que ele sempre teve um jeitinho de me fazer sorrir. Deus me mostrou que se hoje eu sorrio mais é porque me lembro que ele que tanto gostava de sorrir teve tão pouco tempo... Sua beleza era genial, mais do que física mas que vinha de dentro. As vezes que perdi de te-lo beijado foi por respeito ao amor da sua vida afinal ele era tão bonito e radiante. Um dia ele descobriria que a amava também. Hoje posso apenas regar as lembranças no seu túmulo e ser grata aos seus sorrisos que ainda me fazem sorrir... 

Em memória de um grande amigo. 
(Eu sei que ele amaria essa fotografia, ele amava os bichos como ninguém.)
5 de julho de 2015

Trecho anti poético

   
   
     Estou sem inspiração para poesia. Vou mudar minha playlist. Nada de músicas românticas, nada de poesia. Quem sabe assim me distancio do amor que me lembra desafeto. Quem sabe a falta do meu amor deixa de me fazer falta ? Deixa pra lá essa parada de que nasci pra ser poeta. Nasci pra ser escrava das palavras, também da ausência delas em boca alheia. Deixa pra lá esse negócio que faz meu peito palpitar. Deixa de lado esse pulsar que pula tanto no peito que causa até repulsa. Deixa a boca que deveria se unir a minha beijar outras faces. Deixa esse negócio de que desamor é inspiração. Não quero ser poeta. Quero é ser amada. E quanto à minha sina de florescer poesia... Deixa, deixa ser bônus de uma vida dois, completa, que ainda aguarda existir. Deixa essa sina pra trás, larga esse amor, essa poesia sofredora. Não se plante em meus pés. Deixa pisar em falso, se cair a gente aprende a levantar. Só não deixa escapar, não deixa eu escapar das suas mãos enquanto eu puder ser sua. Porque quando o sentimento cura só sobra mesmo a sina. Uma conversa de bar, uma prosa sem poesia, uma ausência de rima.
24 de maio de 2015

Destino


Toc toc toc. Bateram na porta do seu coração. Flores? Foi engano, não acharam o que procuravam. Uma pena. Talvez se ao menos tivessem entrado para tomar uma xícara de chá tivessem encontrado mais do que o que procuravam. Mas o destino foi generoso e livrou a pobre moça de mais um dia de coração despedaçado e alma depenada. Continuou sozinha mas pelos menos completa de si mesma e é claro de muitos chocolates. Floreou a si mesma com as flores que não lhe pertenciam. Foi feliz, sozinha. 
18 de maio de 2015

Segunda-feira



Põe a roupa de domingo e vá ser feliz, ouvi meu pensamento. Uma pena ser uma segunda feira quente e nebulosa. Talvez a neblina viesse de dentro e não de fora. Vesti meu uniforme e segui pelo caminho mais lento, queria ocupar meu coração do que só ocupa a paciência. Cheguei ao trabalho e mais uma vez como tantas meus olhos se encontraram com os dele e nem ao menos um bom dia. Só aquele choque elétrico que me atravessava toda vez que eu o sentia se aproximar. Uma pena não ser um domingo, talvez a roupa me encorajasse a dizer olá. Mas por enquanto apenas o olhar me basta para contar mais um caso de amor não dito
15 de maio de 2015

Onde ela está ?


Um sonho que se chama acreditar. Onde ela está? Sua nobre companhia, sua doce alegria, sua eterna nostalgia, suas utopias. Onde estará ela? É ela que eu quero para mim ? Parto me se não parte dela em mim existir. Parte meu coração quando ela parte e fragmentos de mim são apenas fragmentos. Sem ela o mundo é só mundo. Nada mais há do que uma realidade fatual. É fato que meu mau jeito com ela a fez dissipar mas tanto dela preciso. Volta pra mim criatividade, traga contigo utopias, sonhos e tudo que me leve desse mundo breve. Venha para eu poder dizer ANTES ARTE DO QUE NUNCA, e colorir os dias da minha existência com versos de poesia. Cria tive idade mas a idade dela é infinita basta encontrar. Ficará pois não é finda mas há de se encontrar...
6 de maio de 2015

Alheios constantes





Compartilhar me ei ...
Com os ventos do insólito destino
Alheia de mim desatino 
Inconstante ressoa meu verso 
Meu verbo dissipa ao léu do mundo 
Meu anseio moribundo 
Desata o que não é meu 
Alheio de mim resvala 
Resgata me a canção do mundo 
Da terra retoma me as vontades 
As mais belas saudades 
Dos velhos desejos
Incendeia me aspirações 
Desassocia me a regra de ser 
No instante outrora sou 
No agora o que fui e serei 
Das virtudes me resguardo 
Do eterno anseio ei de ser
Cheia de si no vazio de mim
Já não me comporta o mundo 
E me compete viver 
Uma vida alheia de contantes 
Instantes do agora
Ao remido porém
26 de abril de 2015

A gente se acostuma mas não devia de Marina Colasanti

         A crônica abaixo é uma de minhas favoritas, ela causa em nós uma reflexão sobre nossas vidas e como nos acostumamos com a mesmice cotidiana e assim deixamos que a vida passe. Assim nos acostumamos com os clichês banais e esquecemos que não deveríamos nos acostumar porque assim como o tempo passa um dia nós também passaremos. Um recitação incrível da voz marcante de Antônio Abujamra (Provocações, TV Cultura) e uma construção musical incrível unida a imagens cotidianas retratadas de uma forma que não é comum percebermos. Espero que gostem do Entre Aspas de hoje! 



Mais sobre a escritora Marina Colasanti aqui



10 de fevereiro de 2015

Versinho sobre o adeus

De repente saiu da minha vida
Como um pássaro sai da gaiola
No voo da liberdade
Se foi para sempre
E eu esqueci de me lembrar
Ou me fiz esquecer
O que ficou foi um grande vazio
Repleto de solidão
Descobri que era essa louca paixão
Que me dava forças para continuar


[Pensamentos de 2010]

4 de fevereiro de 2015

Indeterminado

Se não quiser ler tudo, leia apenas os 3 últimos parágrafos! 

Ah, Paulo. Um Paulo qualquer talvez, meu professor Paulo Camilo, idoso calmo da gramática do saber ao sono e as reflexões. Não foi a primeira vez que uma aula dele me inspirou. Lembram se do "Soneto da Reflexiva" ? Não?! Pois bem, estou aqui refletindo mais uma vez sobre a vida e os indeterminados flexíveis ou não.

Olho pra a direita e vejo um simpático amigo, ao lado dele aquele que me inspirará talvez criações e talvez se tornará uma personagem marcante ou não, mas uma personagem que não se passa por despercebida. A tal personagem que gosta das mesmas aulas que eu gosto e que número reduzido de pessoas se afeiçoam. Gramática!

Não foi dessa vez que eu imaginei aquela personagem e ela me tirou atenção. Compreendi toda a gramática e os sujeitos simples ou complexos, determinados ou indeterminados. Mas de repente por sei lá que motivo meu olhar vai de encontro a uma panturrilha e tudo se desembaraça, ou me embaraço mais ainda e perco o fio da meada.

Aquele sujeito esbelto de panturrilha firme desencadeou uma guerra em meu cérebro, espartanos contra atenienses. Troianos contra gregos. Uma guerra para além da gramática. Paulo Camilo não se fez mais presente por mais ou menos 6 minutos, para mim um tempo enorme para se perder imaginando absurdos. E a aula de história foi antecipada, acabei escrevendo História do Brasil no caderno de História Antiga.

O tal rapaz se fez guerreiro em meu devaneio sem sentido. Uma curta guerra que ressaltava sua braveza, inteligência e também beleza que para os povos mediterrâneos era muito importante. Transformei o em uma estátua, pisquei incrédula. Quantos minutos ? Será que alguém percebeu meu olhar para aquela perna sem sentido? O único sentido era andar, levantei me e fui ao banheiro ainda imaginando o rapaz em forma de mármore branco com seus cachos genuinamente esculpidos com a beleza e precisão das esculturas de Michelangelo.

A aula acabou mas esta crônica ainda não. Entrei no ônibus e comecei a ler o livro que minha amiga me deu, pretendo resenhá-lo futuramente. Observei as gramáticas, tantos sujeitos indefinidos e agora eu entendia melhor dos meus e o motivo pelo qual minha mãe sempre se queixou de não entender meus textos.

São todos sujeitos indefinidos, assim como o pseudo guerreiro de Troia. Indefinidos para vocês caros leitores, para mim até mesmo alguns são. Meras invenções, muitas vezes até esquecidas. Personagens sem nome. Totalmente indeterminados, porém conhecidos e com sentido prévio. O sentido pelo qual não reforço a personagem mas o que ela causou, pouco importa se a determinei.

Tão indeterminados somos que a qualquer momento podemos mudar de opinião e começar a gostar de coisas que aparentemente rejeitávamos. A própria aula de Gramática, não gostava muito e sentia aquele tipo de sono mortal enquanto o professor falava, mas um dia decidi que sentiria gozo em toda aula de Gramática e acabei me afeiçoando por ela.

Indeterminados somos, não só sujeitos em terceira pessoa e nunca citados. Somos incabíveis indeterminados, incompreendidos, desencontrados, desencantados, descontrolados, troianos, gregos, guerreiros, poetas, estudantes, sujeitos com seus preceitos, apenas números e muito mais que números, observadores, amadores, aspirantes, cheios de adjetivos. Adjetivados sujeitos, determinados em ser indeterminados na tentativa se determinarmos a ser protagonistas da eterna crônica da vida.

Perdoe me a confusão, se não pude determinar nem a minha própria crônica não cabe a ninguém a determinação de ser quem somos, não cabe a ninguém se prender em ideias pré concebidas, afinal somos todos uma ideia nova que surgiu no mundo.