28 de junho de 2014

Pessimismo


Querida celulose,

Há gritos mudos em mim, há algo que não consigo expressar. Ah, sobre expressar o que sinto sei muito bem explicar. Sou metida a me descrever mas pouco sei sobre mim. Converso com as paredes, mando cartas para um destinatário inexistente. Há muito aprendi a reprimir o que sinto e esconder o que penso. E é assim que eu me expresso: não externando nada.

Querida celulose, senti tanto a sua falta, há tanto tempo não confio em você para contar os meus segredos. Perdoe-me a falta de tempo. Quero contar - lhe que não choro mais, não amo mais, sinto - me como se eu fosse o que tu foste outrora, um vegetal. Grande arbórea sem voz.

As lágrimas aparecem vez ou outra mas não as deixo cair. Talvez uma atrevida se disperse pelo meu rosto. Se alguém viu  contei que era uma lágrima de rinite alérgica. Infalível, acreditam e deixam-me em paz. Lágrima tão inconsequente vem trair minha face pelo olho direito, àquele que o cabelo não cobre.

Você percebeu o quanto eu mudei ? Estou sendo empacotada pelas normas, até para falar contigo eu separo o texto em parágrafos. Mas a bagunça em minha mente ainda permanece. Quanto às dúvidas coloquei-as na minha caixa do nada, do vazio, do inexistente. Dúvidas ? Ainda existem mas agora somente as escolares, principalmente de geometria analítica.

Descobri que esse é o preço que se paga para tentar refazer, reconstruir e viver um sonho antigo. Medicina da solidão. Da quebra de expectativas, da impotência, da incapacidade, da lágrima que não sai, do câncer social. Ao menos abandonei a vida virtual que tinha por uma mais produtiva.

Linhas desta folha digo-lhes que talvez darei a qualquer um esse papel com todo o sentimento e com sentimento nenhum. Se a covardia me permitir dizer adeus poderão chamar-me de louca. Mas em prosa de poeta há mesmo certa loucura.

Despedida: como amor do Grafite menos energético, mais abundante e de cor e valor simples. Desejo a você todo o carbono do mundo. Seja feliz papel, no lixão que te espera, sou grata aos 10 litros de água que se perderam ao produzir-te.

Com enrolação, adeus!


Que fique claro a vocês caros leitores que este texto foi escrito em um momento de pessimismo. Isso não significa que eu seja assim. E o mais importante, é um mero texto artístico. A foto acima é o papel original que por sinal não foi descartado. Esse texto foi escrito em 2013. 

2 comentários:

Anônimo disse...

Nossa !

Rayza Monnyelly disse...

Esse texto sou eu.

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