28 de dezembro de 2014

Maria do mato

Quando fui ao Mato Grosso conheci coisas que nunca tinha visto antes. Hospedei me numa cidadezinha chamada Novo Paraíso que de paraíso só tinha o nome. Adentrando nas redondezas da cidadela visitei uma tia avó que mora numa tapera bem simples. Nunca vi tantos filhos juntos numa só casinha. Umas cem pessoas de filhos e netos à agregados.

Zé é um moço de seus 20 anos que parece ter trinta e poucos, não tem todos os dentes na boca e sua pele é queimada do sol. Ele é casado com Maria que tem 15 anos. 15 anos Maria ? Quinze anos tinha eu quando conheci Maria, casou se aos 13 anos. Mamãe gosta de fotografar e logo quis fotos de todo o mato do Mato Grosso e dos que ali habitam. Maria é como eu não gosta de foto, eu corri mas logo me convenceram e tirar foto com eles. Maria virou as costas ficou emburrada e chorou. Ô Maria, não fica assim. É só uma foto, com fash mas não arranca pedaço.

Ô Maria tão boba, Maria forte e trabalhadeira. Maria que carrega bacia pra buscar água na bica que já sabe fazer remédio com casca de pau e que quer ter um filho pra cuidar. Ô Maria, eu que nem sou branca fico feito neve perto de ti. As meninas do Mato tão fortes perto de mim, apesar de serem franzinas são bem mais fortes que a gorducha branca da cidade e olha que nem sou branca eu só não pego sol.

Tantas Marias pelo Brasil, conheci Maria do mato, parecia bicho que se enconde e nós não somos todos bichos assim como ela ? Todos temos um quê a esconder, uma vergonha e uma falta de costume. Ô Maria seja forte seja bicho seja do mato e mata essa pobreza, corre atrás do que der e viva como quiser. Maria negligenciada tão nova já casada. Sua infância foi roubada pela desesperança do mato que mata todo sertanejo de sol, de fome, de sede, de doença, de chuva que acaba com a roça, de esquecimento.

Marias tão esquecidas, fortes na convalescença. Marias do Brasil, casados com Zés, Antônios, Raimundos e pelo mundo nunca são lembrados são negligenciados sem cuidados. Maria, não sei porque lembrei de ti mas vou colocar você em minhas preces quem sabe Deus te conceda alegria apesar das desigualdades. Cada um tem motivo pra sofrer e sorrir, pobreza não é defeito. Sou tão suspeita pra falar de ti. Fica no teu paraíso que eu de longe lembro que Maria é bicho e toda pessoa também é Maria. Do mato mata as desesperanças e lança no mundo a luz de existir feito água que cai da bica e traz barulho na mata do silêncio de cada coração que pulsa. Ô Maria não chora, ri que o coração melhora e o mundo fica mais colorido, agradece a Deus pela natureza que todo ser tem algo de falido. 

2 comentários:

Gabriela Linhares disse...

Oi, que bom que escreves, com certeza também visitarei teu blog! Acho bonito c:

Jardineira disse...

Obrigada, boa sorte para nós !

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